A conquista do espaço, parte IV: Passando a Febre da Apollo adiante

"Nos dias de hoje, eles provavelmente estariam todos na cadeia ou algo assim."

Por | @Evilmaax Ciência

Antes de você começar a ler este maravilhoso artigo, uma informação importante: Infelizmente ele não é de minha autoria, mas de Eric Berger, e foi publicado originalmente no site Ars Technica. Eu apenas tomei a liberdade de traduzi-lo para que mais pessoas possam ter a oportunidade de ler tal conteúdo.

A história foi dividida em algumas partes, já estando disponíveis:

Parte 1 - Como um incêndio levou o homem à Lua
Parte 2 - A aposta de 50/50 que terminou com a vitória da Corrida Espacial
Parte 3 - O triunfo e a quase tragédia do primeiro pouso lunar
Parte 4 - A febre da Apollo segue viva na NASA
Parte 5 - Salvando a tripulação da Apollo 13

Agora sim, siga à leitura.


Um calor sufocante cai sobre Houston, como inevitavelmente acontece em agosto, quando Raja Chari se apresenta ao Johnson Space Center Home. Ainda sem ter completado seu 40º aniversário, o experiente veterano de combate e piloto de testes nasceu tarde demais para ver o homem caminhando na Lua. Não importa, ele ficou impressionado com o seu novo escritório.

Filho de um imigrante indiano, Chari cresceu no coração da América e se agarrou ao sonho americano. Ele deu duro na escola e depois na Força Aérea para se tornar um astronauta. Então, quando finalmente chegou ao Johnson Space Center, em 2017, como um membro da mais nova classe de astronautas, seu senso de realização se misturava com a reverência pela agência espacial. Ele se encontrava no berço do voo espacial tripulado, onde os astronautas da Mercury 7 e Apollo haviam treinado. Chari também ficou maravilhado com as pessoas ao seu redor. Os engenheiros. Os controladores de voo. Seus colegas astronautas.

"Honestamente, é tudo sobre as pessoas", disse ele a Ars apenas algumas semanas depois de se mudar para Houston. “Estamos todos envolvidos nessa coisa de missão. As pessoas daqui, meus colegas, são o que realmente se destacam. Eu mal posso esperar para ir trabalhar com eles todos os dias.”

Muito, muito mesmo, mudou no meio século que se passou desde que os astronautas que caminhavam pelos corredores do Johnson Space Center se preparavam para as aterrissagens iminentes na Lua. Mas as aspirações e princípios da era Apolo eram tão fortes e significativos, que um vestígio dessa época permanece até hoje na NASA. Essa ideia, esse propósito de explorar, de ir além, é a mesma. Depois de apenas alguns dias em Houston, Chari já havia sido infectado.

O astronauta indi-americano é apresentado como um dos 12 novos astronautas de sua classeO astronauta indi-americano é apresentado como um dos 12 novos astronautas de sua classe

Quase em todas as reportagens desta série sobre o programa Apollo, os participantes mais antigos comentaram sobre a maravilhosa experiência de compartilhar suas esperanças, medos e sucessos com centenas de milhares de americanos igualmente atraídos pela corrida à lua. E similar aos seus sucessores, como Chari, todos esses veteranos do programa Apollo inicialmente se envolveram com a grandeza de seu trabalho e de seus objetivos - a febre da Apollo. Eles trabalhavam dia e noite em circunstâncias incomuns e imprevistas, se desdobrando para alimentar um dos maiores feitos tecnológicos da humanidade do século passado.

Hoje em dia, esses pioneiros dos voos espaciais olham para trás e compartilham um pouco dessa sua experiência de vida profissional quando o Johnson Space Center - e o programa Apollo - eram novinhos em folha.

"Idiotice masculina"

Muitos dos heróis de Apolo vieram de cidades pequenas. Durante os pacíficos anos do pós-guerra, Ivy Hooks cresceu acerca de uma hora ao norte de Houston, antes que os imensos subúrbios da cidade começassem a invadir a reserva de Piney Woods. Em Livingston, passou a infância brincando em campo aberto com seus quatro irmãos mais novos, Hooks nunca pensou muito sobre foguetes ou espaço.

Mas ela aprendeu a amar a matemática no ensino médio e, mais tarde - depois de se transferir para a Universidade de Houston em seu terceiro ano - Hooks encontrou a física. Ela se apaixonava cada vez mais pelo assunto quando precisava aplicar a matemática da sala de aula nos problemas do mundo real. Após se formar na primavera de 1963, no mesmo momento em que a NASA estava construindo o Centro de Naves Espaciais (que seria batizado em homenagem ao presidente Lyndon Johnson, em 1973), na parte sudeste de Houston. A crescente agência precisava de milhares de cientistas e engenheiros talentosos para dar vida à promessa do presidente Kennedy sobre o pouso na lua.

Antes da oportunidade de trabalhar na NASA, Hooks havia sido entrevistada para empregos no principal ramo industrial da região - extração de petróleo e gás. Apesar de sua graduação em matemática, essas empresas só a queriam para cargos de secretariado. A NASA, no entanto, precisava desesperadamente de talentos, independentemente do sexo, e Hooks ainda tinha experiência em matemática e física. Era perfeito. “Quando cheguei à NASA, muitas pessoas formadas em matemática eram tratadas como computadores, como aquela visão que todos já conhecem dos filmes”, disse ela. “Mas como também tive física, acabei sendo tecnóloga aeroespacial como todos os engenheiros.”

Logo, ela colocou essa experiência para trabalhar em vários projetos. Por exemplo, alguns engenheiros de seu departamento estavam lutando para descobrir quais as condições de iluminação que os astronautas poderiam esperar na superfície da Lua enquanto desciam no módulo lunar. Hooks não tinha, exatamente, se destacado nas aulas de física sobre calor, luz e ótica, mas ela havia sido aprovada em todas elas. Mesmo assim isso configurava mais física no currículo do que os demais engenheiros. Então ela assumiu a tarefa. Seu primeiro passo foi ver se alguma coisa havia sido escrita sobre o albedo lunar [coeficiente de reflexão da lua], então ela foi visitar a "biblioteca" de seu departamento.

Visão aérea do Johnson Space Center, em 1963, quando ainda se chamava Manned Spacecraft Center (algo como "Centro de naves espaciais tripuladas")Visão aérea do Johnson Space Center, em 1963, quando ainda se chamava Manned Spacecraft Center (algo como "Centro de naves espaciais tripuladas")

Embora alguns edifícios do novo centro da NASA tenham sido inaugurados em setembro de 1963, a maioria dos funcionários permaneceu dispersa em escritórios temporários por toda a cidade por algum tempo. O departamento de engenharia do qual Hooks fazia parte estava instalado em um prédio de apartamentos no sudeste de Houston, na Telephone Road, que mais tarde seria homenageado em algumas canções por sua reputação "selvagem". A NASA havia se mudado para o prédio antes dele ficar pronto, mas isso não era problema para ela, pois tinha banheiros em todos os cantos. A biblioteca que ela procurava estava localizada em um apartamento de um quarto que não tinha nada além de carrinhos de livros. Eventualmente, Hooks encontrou alguns materiais russos da década de 1920 que, através de matemática pura, descreviam o albedo da Lua. A partir disso, ela derivou equações para usar no simulador de pouso lunar.

Em geral, os programas da Apollo até então eram como um reduto de masculinidade e machismo, tão comum nos anos 60. Para prosperar, Hooks teve que provar suas habilidades profissionais e matar muita coisa no peito. "Eu tive o pior tratamento da minha vida durante aquele primeiro ano", lembrou ela. "Nos dias de hoje, eles provavelmente estariam todos na cadeia ou algo assim, ou pelo menos demitidos. Isso não aconteceria, hoje. Mas você tem que entender, eu cresci com quatro irmãos mais novos. Eu posso aguentar qualquer idiotice masculina".

Ela provou isso um dia após o almoço. Os homens podiam tirar cerca de uma hora e meia para as refeições, mas, segundo eles lhe explicaram, a cientista só tinha direito a se ausentar por 30 minutos. Um dia, depois de um desses almoços rápidos, ela entrou em uma sala de desenho com papel gráfico e sentou-se em um banquinho alto em frente a um quadro de desenho para trabalhar. Um pouco mais tarde, ela olhou pela janela e notou um monte de pessoas paradas descansando próximos à piscina do complexo de apartamentos. Eles estavam olhando para uma cobra ou algo na água, Hooks percebeu e voltou ao trabalho sacudindo a cabeça com aquela besteira toda.

"Estou trabalhando com vontade em algo", lembrou ela. "Eu entro em um desses modos onde nem mesmo percebo se tem alguém por perto." Então, ela ouviu um barulho e olhou para cima. Cerca de 10 homens haviam se aglomerado atrás dela e outros 10 se amontoavam pelos lados da sala. Algo estava acontecendo.

"Então, olho em volta e, em cima do grande quadro de desenho, eles haviam colocado ali um grande pedaço de papel de impressora", lembrou Hooks. “Quando eles tiram o papel, havia uma pequena cobra, uma cobra de jardim ali, que, definitivamente, não era venenosa. Eu acho que eles estavam esperando que eu gritasse, ou pulasse, ou fizesse alguma coisa assim. Então eu apenas estendi a mão, peguei a cobra e me virei para os caras atrás de mim e disse: 'Vão brincar em outro lugar'. Isso provavelmente fez mais pela minha carreira na NASA do que qualquer trabalho que eu tenha feito".

Johson Space Center, em 2014Johson Space Center, em 2014

Estacionamentos cheios

Menos de um milhão de pessoas viviam em Houston na época em que a NASA transferira sua sede de voos espaciais tripulados para lá [hoje são mais de 2.3 milhões]; naquele momento a região era conhecida, principalmente, como uma capital do petróleo. O novo centro espacial passou a ocupar centenas de hectares de vegetação entre a cidade e o Golfo do México, perto da cidade de Clear Lake. Não era bem um pântano, mas, certamente, tinha o clima correspondente. Em sua autobiografia Riding Rockets, o astronauta Mike Mullane, que veio para a NASA muito depois, em 1978, ofereceu uma descrição apropriada daquilo que muitos recém-chegados a Houston devem ter sentido.

"Se a NASA precisar testar uma sonda espacial projetada para sobreviver na superfície de Vênus, um estacionamento em Houston no verão seria suficiente", escreveu Mullane. “O ar condicionado não é um luxo por aqui. É um sistema necessário para se manter vivo."

Embora o programa Apollo tivesse funcionários contratados em todos os estados dos EUA, a agência espacial tinha três centros principais de voos espaciais tripulados. O centro de Houston era responsável pela espaçonave Apollo e pela sonda lunar, além de projetar e gerenciar as missões; o Marshall Space Flight Center, no Alabama, supervisionava o projeto e o desenvolvimento do foguete Saturn V; já a montagem e lançamento dos foguetes era feita no Kennedy Space Center, na Flórida.

Entre as atividades em Houston estava a prática de procedimentos de saída da água. Aqui, a tripulação da Apollo 1 faz treinamentos em junho de 1966.Entre as atividades em Houston estava a prática de procedimentos de saída da água. Aqui, a tripulação da Apollo 1 faz treinamentos em junho de 1966.

Apesar do calor e da umidade em Houston milhares de pessoas foram para a cidade começar a trabalhar no projeto Apollo em meados da década de 1960. Logo, aqueles estacionamentos quentes estariam cheios de carros do amanhecer ao anoitecer. As naves espaciais tinham que ser projetadas: seus componentes testados e integrados, planos de missão elaborados para depois serem construídos, astronautas treinados para pilotá-los. Tudo isso numa época em que nenhum humano havia se aventurado a mais do que algumas centenas de quilômetros da Terra e havia todo tipo de perguntas e incertezas sobre a segurança no espaço profundo e como seria a superfície lunar.

"Eu suspeito que é como se juntar ao exército, onde você entra e todos, com sorte, têm um objetivo em comum", disse Norman Chaffee, um engenheiro de propulsão que se mudou de Oklahoma para Houston, deixando a indústria petrolífera para trás. “O que você faz é se tornar parte de uma família.” Na faculdade, ele assistiu o satélite soviético Sputnik passar voando por cima da sua cabeça, então Chaffee queria fazer sua parte para ajudar seu país a vencer a corrida espacial.

"Quando nos mudamos para o Johnson Space Center, você poderia ir ao local às 6h30 ou às 7h da manhã e metade dos carros estaria no estacionamento", disse Chaffee. “Então você poderia trabalhar até às 6 da tarde, entrar no seu carro para ir para casa, e metade do estacionamento ainda estaria cheio. Então você poderia dormir um pouco mais no sábado de manhã e talvez chegar às 10h30 para trabalhar e metade dos carros estaria no estacionamento.”

Um bando de arrogantes

Uma das coisas notáveis ​​sobre o programa Apollo é como ele reuniu pessoas de todo o país de origens díspares, jogou-as em uma panela de pressão e obteve o melhor de cada uma delas. Foi a magnitude do objetivo final, provavelmente. Tão grande, tão impossível - a audácia de tentar pousar o homem na Lua em 1969 levou as pessoas a dar à nação tudo o que tinham. Hooks poderia ter sido secretária de algum executivo do ramo de petróleo e energia, mas, ao invés disso, ela preferiu um trabalho que a colocou sob situações extremas a cada dia; como recompensa viu-se ultrapassar quaisquer limites de sua capacidade matemática para cálculos de trajetórias de lançamento, albedos lunares a a quantidade de poeira que o módulo de pouso lunar poderia levantar no momento em que se aproximasse da superfície.

Rod Loe foi outro exemplo. Loe cresceu perto de Beaumont, no Texas, praticamente à sombra de Spindletop [um importante campo de extração de petróleo], onde o petróleo que jorra sem parar empurrara os Estados Unidos e o resto do mundo para a moderna era dos combustíveis fosseis. Poder-se-ia esperar que Loe, engenheiro mecânico formado em uma faculdade local, acabasse também trabalhando para as empresas de petróleo. Mas a palavra da NASA e sua necessidade de mentes talentosas foram longe atrás de talentos. Alguns leem anúncios em jornais. Outros, como Loe, ouviram falar de oportunidades de emprego através de amigos.

Por volta do Natal de 1963, ele foi a Houston para uma entrevista de emprego, onde acabou se encontrando com vários dos diretores de voo da NASA, incluindo Gene Kranz. Na época, a NASA havia acabado de completar o Programa Mercury, e a organização havia começado a trabalhar para as missões Gemini. Este foi o período em que a NASA estava rapidamente passando de uma organização relativamente enxuta, com alguns milhares de homens e mulheres dedicados a colocar um humano no espaço, a uma agência completa encarregada de pousar na Lua.

Até hoje, Loe se lembra de seu encontro com Kranz, que mais tarde se tornaria uma lenda por dirigir os desembarques da Lua e trazer a tripulação de Apollo 13 para casa em segurança. Quando Loe entrou para a entrevista, Kranz estava no meio da criação de uma rede de comunicações que seria necessária para falar com os astronautas enquanto eles orbitassem a Terra durante os voos da Gemini. Ao contrário de hoje, em que os astronautas podem conversar com o controle em terra via satélite, não havia uma rede de comunicações estabelecida por satélites nos anos 60. Assim, os controladores de voo teriam que ser posicionados em pontos de passagem ao redor do mundo para que a NASA mantivesse contato direto em linha de visão com a cápsula da tripulação e pudesse estabelecer contato.

"Gene tinha um escritório bem estreitinho e atrás de sua mesa havia um quadro branco com todos os possíveis locais remotos para comunicação listados", disse Loe. “Quando eu cheguei ele estava no telefone dizendo coisas como: 'OK, eu tenho fulano de tal indo para Zanzibar ; Eu preciso de passaportes para eles.' Ele estava falando sobre todos esses locais no exterior e outras coisas. Isso soou fantástico para mim."

Loe aproveitou a oportunidade, e logo se tornou um controlador de voo para as missões Gemini trabalhando no coração do Controle da Missão. E apenas cinco anos após sua primeira entrevista com Kranz, Loe estava lá naquela fatídica véspera de Natal, quando a tripulação da Apollo 8 leu um trecho do Gênesis e começou seu retorno triunfal da órbita lunar. Como a própria NASA, ele foi muito longe, muito rápido.

Gene Kranz no Controle da Missão após o mergulho da Apollo 13 (13 de abril de 1970), no qual a tripulação teve que fazer um retorno emergencial à Terra depois de perder seus tanques de oxigênioGene Kranz no Controle da Missão após o mergulho da Apollo 13 (13 de abril de 1970), no qual a tripulação teve que fazer um retorno emergencial à Terra depois de perder seus tanques de oxigênio

Nem a NASA nem o seu pessoal tinha feito isso por serem discretos. Na verdade, os controladores de voo eram, em geral, um bando de arrogantes. Eles projetaram os planos de voo da Apollo e, em seguida, guiariam os astronautas a cada passo dado até que chegasse o grande momento. Certamente, havia um respeito mútuo entre os controladores de voo e o corpo de astronautas, mas aqueles que trabalhavam no Controle da Missão se consideravam os cérebros das operações.

"Acontece que éramos personalidades muito agressivas", disse Sy Liebergot, um controlador de voo da EECOM [departamento de "Gerência de eletricidade, ambiente e itens de consumo"] que trabalhou em vários dos voos da Apollo. “Se discordássemos de você, enfiaríamos nossos dedos nos seus olhos e diríamos o que pensávamos sobre a sua mãe. Mas sermos tão agressivos foi a razão pela qual fizemos tudo o que fizemos. Nós não nos importávamos com o que você pudesse pensar."

Famílias

As famílias dos homens e mulheres envolvidos na corrida espacial também precisaram entraram de cabeça na aventura, e não somente as esposas e filhos dos astronautas. Mas também as dos técnicos, engenheiros, cientistas e controladores de voo que trabalharam horas e horas para poder cumprir a meta do presidente Kennedy de pousar na Lua até o final da década de 1960.

“Tudo o que sabíamos era ir trabalhar, treinar, assistir tv depois do trabalho ou tarde da noite depois de alguns testes de lançamento e chegar em casa uma ou duas horas da manhã”, disse Liebergot, o controlador de voo. “E nossas pobres esposas simplesmente aguentavam isso.”

Relembrando seu tempo na NASA, Chaffee, o engenheiro de propulsão de Oklahoma, diz que lamenta não ter passado mais tempo com seus filhos enquanto eles estavam crescendo. Sua esposa acabou sendo pai e mãe na criação dos filhos. Mas no final, valeu a pena. Chaffee tem como uma de suas memórias mais queridas quando colocou os seus filhos no colo para assistirem juntos ao pouso da Apollo 11 na Lua.

Sua filha tinha sete anos e seu filho tinha cinco anos em 1969, na data da aterrisagem. Chaffee estava sentado na sala de estar de sua modesta casa no sudeste de Houston, onde ele mora até hoje. Enquanto toda a família observava, dois homens desciam na Lua, às vezes usando os propulsores que o próprio Chaffee havia trabalhado. O fato diminuiu alguns dos seus arrependimentos por ter trabalhado tantas horas.

Uma carta simples ajudou também. Depois da missão Apollo 11, o diretor do centro de Houston, Robert Gilruth, enviou uma carta aos cônjuges de cada um dos funcionários da NASA na cidade para reconhecer a dedicação das famílias naquela empreitada. Norman Chaffee e sua esposa ainda têm sua carta, quase meio século depois.

"Foi um grande gesto do Dr. Gilruth, da NASA e do centro", disse o engenheiro. "Dr. Gilruth assinou todas elas. A carta veio endereçada à minha esposa dizendo: 'Queremos agradecer por seus sacrifícios e pelo que você fez para permitir que Norman Chaffee fizesse seu trabalho, o que nos permitiu concluir essa missão que nos foi concedida pelo governo dos EUA.' Ela tem orgulho daquela carta e eu também."

Gilruth era um componente-chave da equipe que gerenciava os funcionários e terceirizados não só em Houston, mas todos aqueles espalhados pelo país. Chris Kraft, que supervisionou as operações de voo, disse que coordenar a enorme força de trabalho da Apollo sozinho foi um feito gigantesco. O programa Moon contou com milhares de terceirizados, universidades e a maioria das agências governamentais.

Chris Kraft, à esquerda, e Robert Gilruth monitoram o lançamento da Apollo 5 em 1968.Chris Kraft, à esquerda, e Robert Gilruth monitoram o lançamento da Apollo 5 em 1968.

"Aquela missão levou a um monte de trabalho", disse Kraft. “Em determinado momento, havia 400 mil pessoas trabalhando na Apollo, e alguém precisava dizer a todas essas pessoas o que fazer. Foi um trabalho de gerenciamento. Havia pessoas de todos os tipos nos aconselhando sobre o que fazer. A cascata de gerenciamento não foi uma tarefa pequena.”

Mas agora, décadas depois, a Kraft ainda se enche de orgulho quando pensa na dedicação daqueles que ajudaram a empurrar os Estados Unidos até a Lua. Muitos dos que trabalhavam nas trincheiras trabalhavam tão bem quanto aqueles que estavam no topo.

"Foi um grande desafio, e você não consegue imaginar um desafio maior", disse Kraft. "Eu não consigo pensar em um desafio melhor. Eu não conseguia pensar em uma coisa melhor para fazer todas as manhãs. Então eu estava feliz em me levantar e ir trabalhar todos os dias. Tive o prazer de trabalhar 10, 14 horas por dia, sete dias por semana. E eu tinha alguns milhares de pessoas que estavam dispostas a fazer a mesma coisa”.

Fabricantes de Velas

Depois que a última missão Apollo voou, os homens e mulheres que tornaram isso possível ainda tinham, em geral, 30 ou 40 anos. Eles tinham a maior parte de suas vidas pela frente. De alguma forma, eles tiveram que lidar com a realidade de que, para quase todos eles, o maior trabalho profissional de suas vidas e a maior das conquistas, já estava feito.

No final do programa, enquanto a euforia se desvanecia lentamente, Hooks se lembra de tentar avaliar o que a aterrissagem na Lua significava para ela, pessoalmente, e como ela enxergava seu papel em tudo aquilo. No final, ela viu que sentia afinidade com aqueles que ajudaram a lançar os grandes exploradores das eras passadas.

"Houve um momento da minha vida em que percebi que acabara de passar por algo significativo", disse ela. “Isso foi uma coisa tão grande, e minha parte foi tão pequena. Posso comparar isso com mais alguém? Eu pensei, talvez os fabricantes de velas de Colombo. Quando o viram voltar para casa após ter conseguido eles devem ter tido sentimentos semelhantes."

Houve diferenças, claro. Quando Colombo partiu, os fabricantes de velas de sua embarcação não o viram por vários meses. Não tinham como saber quando ele poderia voltar, se é que isso aconteceria um dia. Mas semelhanças importantes permaneceram cinco séculos depois. Ivy havia tido um papel pequeno na empreitada como um todo, mas se ela não fizesse direito as pessoas morreriam.

A magnitude da Apollo resistiu ao tempo. Nem a NASA nem qualquer outra pessoa chegou perto de igualar sua audácia ou conquista. Mesmo os astronautas mais novos da NASA, como Chari, referem-se com reverência ao programa e ao seu pessoal.

Um dia, talvez, a NASA supere suas conquistas da década de 1960. Marte está logo aliUm dia, talvez, a NASA supere suas conquistas da década de 1960. Marte está logo ali

Mesmo após o fim de seu treinamento, Chari não sabe para onde ele pode voar um dia. Pode ser a Estação Espacial Internacional, a bordo de um dos novos veículos comerciais da NASA, ou poderia ser rumo ao mais profundo espaço, possivelmente de volta à superfície da Lua, para onde o governo Trump sinalizou ser o desejo da Casa Branca. "Vamos fazer algo novo", disse ele. "É com isso que estou animado."

Ler sobre Apollo ajudou a intrigar Chari sobre voos espaciais e alimentar seu sonho de se tornar um astronauta. Ele percebe que hoje uma nova geração de fabricantes de velas, alguns na NASA e outros de um grupo cada vez maior de empresas espaciais privadas, está pronta para escrever suas próprias histórias sobre futuras explorações. Então, com sorte, Chari estará entre os astronautas que levarão a América de volta à Lua e potencialmente partirão para destinos além. Será um empreendimento bastante diferente daquele que ocupou os recrutas que caminhavam pelos mesmos prédios, em Houston, há mais ou menos 50 anos, mas certamente o espírito e a influência da história da NASA continuam bem vivos.


O texto acima pode ser acompanhado em um vídeo produzido também pelo site Ars Technica onde podem ser vistas entrevistas dos astronautas e de quem mais participou deste momento histórico (em inglês).

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