Confira nossa conversa com um taxista e um motorista Uber

A treta é violenta e nós fizemos questão de ouvir os 2 lados. Veja o que cada um deles nos disse e depois nos conte sua opinião nos comentários.

Por | @Evilmaax Tecnologia

De que lado você está nessa briga? De um lado estão os taxistas que lutam pelo seu mercado com unhas, dentes e algumas outras formas não tão lícitas. Do outro lado os motoristas do Uber que só querem trabalhar e conquistar o público oferecendo um serviço diferenciado em termos de qualidade.

O que está acontecendo?

No Brasil existe uma lei que regula o transporte de passageiros dentro das cidades, a lei de mobilidade urbana número: 12.468, de agosto de 2011. Uma lei recente, 4 anos separam os taxistas regulamentados, que precisam ser credenciados, ter alvará e uma licença especial emitida pelas prefeituras das cidades para conseguir operar. Os taxistas alegam que esse processo é caro, já os motoristas Uber afirmam que ele é ilegal.

Por outro lado, para você se tornar um “caroneiro” do Uber, é preciso se inscrever no site, passar por uma checagem de antecedentes criminais, possuir carteira de habilitação que permita trabalhar como motorista profissional, ser dono do próprio carro e atender a vários outros critérios para conseguir trabalhar pelo aplicativo.

Na prática os taxistas afirmam que o serviço aplica uma concorrência desleal. Já os motoristas Uber apenas estão “roubando” mercado daqueles taxistas que não se preocupam em prestar um serviço de qualidade, ou seja, que os bons taxistas não serão afetados. 

Já os motoristas Uber afirmam que os taxistas não precisam pagar IPVA e têm desconto na compra de veículo para trabalho que pode chegar a 30% do valor normal, após a redução total do IPI e ICMS. Os motoristas do aplicativo também afirmam que eles não recebem desconto algum para, por exemplo, trocar de carro – vital para você ser um motorista do serviço, que só aceita carros com até 3 anos de uso na categoria Uber Black e 5 anos na categoria Uber X.

Mas e aí, quem está certo? Eu é que não sei, mas, estive na última semana em São Paulo onde bati um papo com um motorista de táxi e com um motorista do Uber Black. Confira agora o que cada um deles disse.

Antes de começarmos é interessante explicar que as falas serão apresentadas segmentadas por assunto e não como uma conversa contínua. Assim conseguimos colocar lado a lado a opinião de cada classe e deixar a discussão mais coerente. Agora sim, vamos lá:

Nossos motoristas

O motorista de táxi é o senhor Climério Hinoto, um baiano descendente de japoneses, que morou durante muito tempo no Japão e retornou há 6 anos para o Brasil. Peguei seu táxi no aeroporto de Guarulhos e fomos conversando até a Avenida Paulista, onde terminou minha corrida. Neste mesmo táxi que passei cerca de 40 minutos para chegar ao meu destino ele faz uma jornada extrema de até 18 horas dirigindo para poder pagar as contas da casa e a franquia da cooperativa de táxis da qual faz parte. E mais, ele disse que mesmo com essa carga horária, sua qualidade de vida é infinitamente inferior àquela que ele levava, por exemplo, no Japão, onde trabalhava “apenas” 12 horas e era repositor de matéria-prima em uma fábrica de componentes eletrônicos.

Confira nossa conversa com um taxista e um motorista Uber

Já o motorista do Uber se chama Anderson e pediu para não mostrar o rosto nem que fosse exibido seu sobrenome. Anderson está no Uber há pouquíssimo tempo, e mais, está apenas de passagem. Seu ofício é mesmo a corretagem de imóveis, porém, como o mercado imobiliário está em baixa, ele viu no Uber uma boa oportunidade de complementar a renda e pagar as contas em dia dirigindo apenas nas suas horas vagas.

Sobre o Uber

Lado do taxista: Para o senhor Hinoto, não há problema nenhum em haver concorrência no mercado dos táxis, porém, a clandestinidade dos motoristas de Uber não pode ser aceita. Se o serviço for legalizado e os Ubers pagarem impostos assim como os taxistas, não terá problemas, “há espaço para todo mundo.”

Quando questionei se ele tinha medo de perder terreno e ficar, talvez, sem emprego por causa do Uber, após essa possível legalização, ele respondeu que “espaço [para os taxistas] vai ser perdido, mas tem que ter espaço para todo mundo, ainda mais quando o Brasil passa por um período de dificuldades.” O problema maior para ele é que, do nada, uma pessoa cria a conta no app e já sai dirigindo e fazendo corridas por aí, sem pagar nada de impostos e taxas que encarecem o serviço para um taxista convencional. Além disso, ele, como taxista de cooperativa, está "preso" ao seu ponto, que é o Aeroporto de Guarulhos. Se algum passageiro pedir para embarcar quando ver o seu táxi passando pela rua, ele está impedido de pegar a corrida, sob risco de penalização. O Uber não, esta livre para pegar qualquer um em qualquer local.

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Outro fato apontado é a qualidade dos motoristas: “Os carros só porque são executivos, de repente os motoristas nem são tão preparados para estarem ali. Os taxistas fazem curso para estarem ali”.

Lado do Uber: Anderson também disse que entende ter espaço para todos que queiram prestar o serviço, sejam taxistas regulamentados, ou motoristas Uber que prestam serviço de carona e acha que o Uber está se sobressaindo por questões naturais. “O cliente sempre vai preferir o que é melhor para ele. Hoje você pega um táxi e é atendido por alguém educado e bem vestido. Taxista não, na maioria das vezes eles até fumam no carro com você dentro.“

Quanto aos impostos pagos pelos taxistas ele questiona: “Que impostos? Eles pagam o quê? O alvará? É ilegal pagar pelo alvará. Pra você ter alvará tem que entrar numa fila e participar de um sorteio. A venda é proibida. O gasto que eles têm é com o ponto, para ficar na rua, mas em contraproposta eles têm isenção de 20% no IPVA e depois não paga mais, mais de 30% de desconto na compra do carro, isenção de rodízio, podem andar na faixa do ônibus e o Uber não. Inclusive saiu uma matéria semana passada na Veja que colocou 10 anos trabalhando na Uber e 10 anos trabalhando no táxi, mostrando tudo que se paga. Considerando o motorista do Uber pagando 1.5% de imposto. O motorista de Uber paga R$ 490 mil dentro desses anos e o motorista de táxi paga R$ 410 [mil]. Então, mesmo assim a gente paga mais. Eu não sei o que é que eles pagam que a gente não paga.” (procurei a citada matéria para linkar aqui no post, mas não a encontrei).

“É a evolução, não tem como proibir isso daí. Já têm outros aplicativos como 99 Taxis, Easy Taxi, que são aplicativos de celular como o Uber. O Uber só é um serviço diferenciado para pessoas exigentes. Quem não quer andar num táxi caindo aos pedaços anda num Uber, um carro de luxo e limpo com motoristas educados que não se recusam a fazer corridas pequenas.” Ele ainda disse que é justo que ele e demais servidores do Uber paguem alguma taxa, quem sabe o mesmo 1.5% que é cobrado em outros países nos quais a companhia atua e tem estas questões definidas.

Legalização do Uber

Lado do taxista: Como vimos nas falas anteriores, o taxista é a favor de legalizarem o serviço da Uber, porém, afirmou que não acredita que isso vá ocorrer tão cedo. Segundo ele, dos 27 vereadores de São Paulo, somente 1 deles votou a favor do Uber recentemente.

Lado do Uber: Quanto à legalização, Anderson espera que ocorra sem problemas. “É a evolução, né? A livre concorrência. Quem ganha com tudo isso é o passageiro.” E em relação à mesma votação citada pelo taxista Climério Hinoto, o motorista do Uber afirmou que não se tratava da regularização do serviço, mas sim do pagamento de impostos, então a negação em peso dos políticos não assusta, além disso ele lembra que recentemente a presidenta Dilma vetou um projeto que queria barrar o aplicativo de uma vez por todas no Brasil.

Ele teme apenas que demore para acontecer, pois “para eles é mais rentável aplicar uma multa do que ganhar sobre 1,5% dos valores das corridas. Não sei se há um interesse político para a regulamentação, hoje.”

Taxistas virando Uber

Lado do taxista: Sobre o questionamento se ele próprio poderia virar um Uber assim que viesse a legalização, o senhor Hinoto disse que “ vontade dá. Se é verdade que você só paga 20% a Uber e o restante da corrida é seu... é que eu não tenho muita cara de pau. Nada me impede de eu comprar um carro, colocar um colega meu a fazer isso aí pra mim. Eu acordo as 4:30 e fico até as 22h, o pessoal que dirige no Uber, talvez, nem acorde tão cedo, fica só na espera, e faz 2 ou 3 corridas e ganha mais do que eu ganho. Só basta ter um pouquinho de cara de pau, eu acho.”

Ele ainda disse que sabe de muitos colegas que estão virando Uber. Compram um carro e passam a fazer corridas por conta própria.

Lado do Uber: Anderson aposta que têm muitos taxistas que estão com vontade de virar Uber, afinal, como taxistas eles não tem apoio algum ou incentivo. Para ele, há uma boa quantia de taxistas que só estão esperando a regulamentação para mudarem para a Uber.

Confira nossa conversa com um taxista e um motorista Uber

Agressões

Lado do taxista: O motorista de táxi disse que não vê ou ouve falar da violência na cidade de São Paulo onde mora e faz boa parte de seus deslocamentos. Segundo ele são poucos os casos que realmente existem, e que quando surgem, tomam esse tamanho todo, justamente pelas suas características extremas e pouco comuns.

Lado do Uber: Bom, essa não foi a versão de Anderson. Ele próprio conhece vários colegas que já foram efetivamente agredidos. Ele, inclusive, já sofreu com a violência por parte dos maus taxistas.

Segundo Anderson é comum taxistas chamarem um Uber em alguma rua sem saída como se fosse mais um cliente. Então eles armam uma emboscada e apedrejam, ofendem, ou até fazem coisa pior. Um colega seu de Uber foi chamado há 2 semanas atrás na Vila Olímpia às 3 da manhã. Ao chegar lá os taxistas fecharam seu carro. O rapaz largou o automóvel e saiu correndo sendo perseguido de carro pelos taxistas. Facilmente capturado pelos homens – que também estavam armados –, Anderson contou que seu amigo foi colocado no carro de um deles, agredido e depois largado na Marginal Pinheiros. E se você está se perguntando o que aconteceu com o carro do motorista Uber que ficou para trás, ele foi destruído a socos e pontapés.

“Aí eu te pergunto: Quem são os ilegais? Quem são os bandidos? Os Uber ou os taxistas? Já ouviu falar de alguém da Uber agredir taxista? Na Uber não tem marginal, não tem bandido, não tem nem gente ilegal e gente que tenham passagem na polícia [...] Aqui não tem bandido, aqui só tem gente de família.”

O questionamento do motorista do Uber faz sentido, já que ele também não escapou ileso dessa confusão toda. Há 2 semanas seu Hyundai Azera foi alvejado com uma pedra no para-brisa. Ele lamenta, pois algumas centenas de taxistas mal-intencionados acabam sujando a imagem de uma classe de mais de 36 mil trabalhadores, número da frota de taxistas paulistanos.

Diferenças entre o suporte prestado aos motoristas Uber e aos taxistas

Lado do taxista: Como relatado mais acima, Seu Climério roda horas e horas por dia para conseguir manter as contas da casa. Como consequência não tem tempo algum para a família ou vida social, por exemplo, coisa que ele se queixou por diversas vezes durante nossa conversa. O pior é que essa prática cobra seu preço também no que se refere à saúde. Ele relata que por diversas vezes preferiu voltar mais cedo para casa e descansar, do que continuar dirigindo e bater o táxi por conta de um cochilo no volante– como muitos de seus colegas já fizeram. Se isso ocorrer ele terá de arcar com todos os custos sozinho, mesmo fazendo parte de uma cooperativa de taxistas que cobra uma alta taxa em diárias.

“Eles não se preocupam nem em ligar para saber se você está vivo ou se está morto caso aconteça alguma coisa”.

Lado do Uber: Situação completamente oposta é o suporte recebido pelos motoristas da Uber. Anderson contou que qualquer despesa imprevista em seu carro é de total responsabilidade da empresa. Por exemplo: ele nos contou que as apreensões dos veículos Uber estão muito comuns pelos órgãos municipais de trânsito. “Eles estão abordando os motoristas e com a ajuda da PM averiguam o carro, conferem a bolsa com água, veem que é Uber. Até no aeroporto de Congonhas eles estão abordando, dentro do estacionamento, inclusive. Daí não tem o que fazer. Prendem o carro e mandam pro pátio. Daí é diária, multa, guincho, mas a Uber paga tudo pra você.”

E no final quem vence?

E aí, de que lado você está? Bom, parece clichê, mas eu penso que o táxi não vai acabar, o que acontecerá (já está acontecendo) é que aqueles taxistas, que até então nunca haviam enfrentado concorrência, agora, precisarão se adaptar ao novo panorama, senão, com certeza ficarão para trás.

Infelizmente nem todos os motoristas de táxi são tão cordiais e simpáticos quanto o seu Hinoto e alguns poucos deles conseguem manchar toda uma classe que se esforça para trabalhar honestamente. Enquanto isso, motoristas espertos e que sabem dançar conforme a música, tal qual Anderson, conquista cada vez mais novos e fiéis clientes.

Como defensor da evolução natural das coisas, eu defendo o Uber e agora posso afirmar após minha primeira experiência com o serviço: “Quem pega um Uber não quer mais saber de táxi”. Pelo menos não do jeito que eles estão. Esperamos que uma competição saudável para ver quem oferece o melhor serviço só venha a melhorar as coisas para nós, consumidores.

O tema é polêmico e por isso queremos saber sua opinião. Conte para nós aí nos comentários (ÓÓÓ´: EDUCAÇÃO, HEIN?).

As opiniões e dados apresentados são de responsabilidade dos motoristas. O Oficina da Net somente deu voz a estes profissionais. 

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