Entenda como Seattle se torna a primeira cidade a permitir que se vote por smartphones

Se trata de um projeto piloto em que todo o eleitorado regional poderia optar por votar por smartphones ou computadores. Se trata de uma estratégia para diminuir custos eleitorais e aumentar a taxa de adesão.

Por Tecnologia
Vista aérea de Seattle - Imagem: Divulgação drizly.com
Vista aérea de Seattle - Imagem: Divulgação drizly.com

Seattle é a cidade estadunidense onde o maior programa de votação remota e online está ocorrendo. Um pouco mais de um milhão de votantes já estão registrados para votar na próxima eleição através de um smartphone ou computador.

Esse programa piloto entrou no ar oficialmente na semana passada e votantes já podem utilizar seu aparelhos para acessar um portal criado pela empresa Democracy Live com fundos governamentais. Esse portal grava a escolha do votante em um PDF que é posteriormente verificado pelo cidadão e enviado. É realmente como uma cédula, só que digital.

Seattle se torna primeira cidade a permitir que se vote por smartphones

Julie Wise, a diretora de eleições de Kings County, afirmou ao The New York Times que garante completamente a segurança do processo. Essas cédulas digitais passam pelo mesmo processo de verificação de cédulas físicas.

Baixa taxa de adesão em eleições

Todo o projeto piloto acontece devido a baixíssima taxa de votantes nas últimas eleições. O voto nos Estados Unidos não é obrigatório como no Brasil, por isso cada vez menos gente vota, o que coloca eleições em risco de baixa legitimidade. Mas se cidadãos pudessem votar com mais praticidade de conforto, muito mais gente o faria. Há uma questão de custo envolvido também. Já existia um sistema de enviar cédulas de votos por correio, mas isso acarreta em um custo praticamente ilegal para o governo estadual e federal estadunidense.

Mas o maior ponto de discussão é sobre a confiabilidade e segurança que um sistema online poderia ou não ter. Se trata de informação sensível sendo transmitida online e logo em tempos de constante acusações de manipulação do resultado de eleições e de interferência internacional.

Riscos de segurança e legitimidade

Marian Schneider, a presidente da organização não partidária chama Verified Voting que se dedica a manter a integridade das eleições, ressalta que uma rede de supermercados chamada Wawa teve dados invadidos recentemente, e que essa rede teria muito mais recursos do que pequenas oficinas eleitorais locais. Por isso, o risco seria sim muito evidente.

Em julho, o comitê de inteligência do Senado americano apontou que todos os 50 estados do país foram alvos da Rússia durante eleições de 2016. Porém, não há evidência concreta de votos adulterados. A ameaça continua e os EUA e muitos outros países lutam para deixar o ato de votar mais acessível e algo a ser incentivado, enquanto a segurança de seus sistemas eleitorais é posta em dúvida.

As eleições de novembro desse ano nos Estados Unidos será a primeira do país na qual um sistema de voto mobile e online é disponível para todo um eleitorado regional. Esse sistema já foi aderido e já funcionou em West Virginia, mas somente para pessoas com deficiência, idosos e residentes em outros países.

O portal da Democracy Live, porém, passou por testes de segurança realizados pelo laboratório independente SLI Global Solutions e foi completamente aprovado, segundo o presidente da empresa desenvolvedora e administradora desses votos online.

O sistema é mais primário do que se imagina. Já se realiza votos através de correspondência nos EUA. Esses votos online, no final das contas, funcionariam da mesma maneira. Qualquer votante poderia ainda acessar sua cédula online e imprimi-la para enviá-la por correio se assim se sentir mais confortável. A etapa de impressão de cédula física sempre vai acontecer, o órgão eleitoral em questão deverá imprimir todas cédulas enviadas online pelos PDF. A única questão é que não é mais necessário o enorme volume de cédulas nos correios, com a internet substituindo carteiros.

É um sistema que está realmente dando o que falar, mas na realidade é mais conservador do que se espera. O medo existe apenas na transmissão online dessas cédulas de votos, mas uma adulteração em massa parece improvável pela necessidade de edição de PDF por PDF que já são protegidos.

A vulnerabilidade poderia realmente ser maior caso houvesse um servidor central que contabiliza todos os votos, mas o sistema é apenas um correio eletrônico para enviar sua cédula. Para todos os fins, novembro trará um verdadeiro teste desse sistema piloto e poderemos ver os resultados, bons ou ruins.

No Brasil?

Um sistema desses no Brasil é desnecessário no momento em que o voto é obrigatório por aqui. Existe uma demanda constante e já até mesmo um tanto antiga de que isso seja revisto em nosso país, mas s discussão é de longa data e muito mais ampla. No final das contas, a acessibilidade tecnológica por aqui depende de distribuição de renda e incentivo governamental. Votar a distância pode parecer tentador para grandes cidades, mas completamente inacessível para a enorme parcela mais pobre do Brasil e para aqueles longe de centros urbanos. Seria necessário manter dois sistemas eleitorais paralelos, e o Brasil mal consegue ter recursos para o nosso atual.

A longo prazo, entretanto, a votação a distância é algo que economizaria tempo e recursos tanto dos governos quanto da população. Porém deve ocorrer de maneira a jamais prejudicar a confiabilidade de eleições. Em tempos de Fake News, manipulação de eleitorado em redes sociais e interferência externa em eleições, é realmente difícil garantir completamente a segurança de votos digitalizados. Até mesmo porque não é necessária prova concreta de adulteração, uma leve dúvida fere a credibilidade de um processo todo e fere a governabilidade de qualquer que seja o ganhador, gerando séria instabilidade política.

Fontes: The New York Times e The Wall Street Journal

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