Como funciona um míssil balístico intercontinental e as chances da Coreia do Norte ter um

Uma das maiores armas de destruição em massa - o ICBM - pode estar nas mãos de um dos líderes mais descontrolados do mundo?

Por | @Evilmaax Ciência

Mais uma vez vivemos um período de tensão nas relações internacionais. No momento em que escrevo, maio de 2017, a Coreia do Norte está bravateando contra os Estados Unidos da América, dizendo que é capaz de mandá-lo pelos ares e tudo mais.

No entanto essa ideia romantizada que o período da Guerra Fria colocou na nossa cabeça de que a qualquer momento alguém pode apertar um botão e acabar com um país inteiro é mais ficção do que realidade. Pelo menos para boa parte dos países do mundo, entre eles a Coreia.

Os tais mísseis que vemos saindo de silos subterrâneos, atravessando oceanos e explodindo a milhares de quilômetros nos filmes são os chamados Mísseis Balísticos Intercontinentais, ou ICBM (sigla em inglês), e eles são verdadeiros monstros, tanto em tamanho como em destruição.

O que é e como funciona um míssil balístico intercontinental

Conhecidos desde a época da 2ª Guerra Mundial, para ser considerado um míssil deste tipo, primeiro, a arma tem de ter um alcance extremamente grande, no mínimo 5.500 km de distância do local de lançamento. Isso é o equivalente a lançar um míssil em Nova York e acertar em Paris, ou então, Porto Alegre a Costa Rica.

Lembrando que esse é o mínimo: China tem um MBI na ativa que pode alcançar 15 mil km de distância, enquanto a Índia está desenvolvendo um de 16 mil km. Isso seria o suficiente para os países acertarem boa parte do mundo, caso quisessem.

Por ser uma tecnologia avançada e de difícil acesso, sabemos hoje que poucos países possuem armas deste tipo em seu arsenal. São eles: Estados Unidos, Rússia, França, Reino Unido, Israel, Índia e China. Sabe-se também que o Paquistão possui os IRBM’s (mísseis balísticos de médio alcance) e pode estar desenvolvendo pesquisas para chegar ao de longo alcance, mas ainda é um mistério.

Atualmente (após um acordo que restringiu o número de mísseis que Rússia e EUA podiam armazenar) os MBI possuem tecnologia para carregar dentro de si mais de uma ogiva e fazer com que cada uma exploda em pontos diferentes, possibilitando múltiplos ataques com um só lançamento (e só 1 míssil armazenado na contagem).

As fases de voo de um míssil balístico intercontinental são:

  • Fase inicial/lançamento: Dura entre 3 e 5 minutos, variando por conta da distância do alvo e do tipo de combustível do míssil. A impulsão vai de 4 a 8 km/s e ele pode se estabelecer em uma altitude que varia de 150 a 400 km;
  • Fase intermediária: Dura em média 25 minutos e é onde ele vencerá grande parte do trajeto. Alcançando e viajando a uma altitude de até 1200 km onde, além de contar com um menor atrito com o ar, livrar-se-á dos radares inimigos e sistemas de defesa;
  • Fase final/impacto: Após o míssil começar sua descida em direção ao alvo essa fase inicia no ponto de mais ou menos 100 km de altitude e dura até 2 minutos em uma velocidade que pode alcançar 7 km/s. A precisão na hora de acerta o alvo também é bastante variada, indo de 5km em modelos antigos a menos de 10 metros em modelos modernos.

Abaixo o lançamento do MBI russo RT-2PM2 Topol-M (ou apenas Topol M) sendo lançado. Ele tem um alcance de 11 mil km (suficiente para ir de Moscou a Austrália, a qualquer cidade importante dos EUA, ou, até mesmo Brasília – 11.170 km de distância). Ele é um dos leves: tem apenas 47 toneladas sendo 800 kilotons de explosivos. Produzido desde 1994 tem uma precisão de 200 metros.

Por que um míssil desses ainda é impossível para a Coreia do Norte

Você reparou bem no tamanho daquela coisa ali em cima? Pois bem, uma arma daquelas pode pesar muito, mas muito mesmo; mais do que você está imaginando. Dependendo do modelo ele pode ter de 30 a 280 toneladas.

Mas vamos ficar na média, com um de 100 toneladas que são modelos que alinham potência, alcance e precisão. Isso é mais ou menos o peso que podia alcançar um Argentinossauro – o maior dino que já viveu por aqui –, o equivalente a mais de 15 elefantes na natureza, ou, mais ou menos, 100 carros populares.

Dessas 100 toneladas, 10% corresponde à sua fuselagem, 89% ao combustível e, apenas, 1% ao material explosivo. Agora imagine colocar 15 robustos elefantes selvagens em uma plataforma e lançá-los a 7 mil quilômetros de distância.

Quanto mais longe você quiser mandá-lo, mais combustível terá que colocar no mesmo. É o que acontece com um chute que você dá em uma bola. Quanto mais longe quiser mandar, mais forte terá que ser o combustível que proporcionará o deslocamento (a força da sua perna). E quanto mais combustível, mais peso; com mais peso de lançamento, maior e mais potente terá de ser a plataforma de lançamento.

Dificilmente a Coreia do Norte tem algo com esse poderio em mãos.

O que temos até agora

Sabemos que a Coreia do Norte já conseguiu alguns feitos interessantes para quem é completamente isolado: Eles colocaram um satélite em órbita sozinhos. Algo como o cara da escola que perde a aula, não fala com ninguém e mesmo assim consegue fazer um dever de casa muito difícil. Porém, passar de ano é outra história.

Um satélite é mais leve e sobe em linha reta constante queimando combustível, sem muitos mistérios (supondo que você entenda de engenharia espacial), já um MBI – além de todas as dificuldades que vimos até agora – tem um trajeto em curva a ser compensado com regulagem da queima e gestão do combustível, altitude, etc.

O ICBM russo de mais longo alcance pode fazer o percurso Moscou x Brasília

Com algumas demonstrações de força eles, inclusive, já lançaram alguns de seus mísseis, mas nem todos saíram como o esperado. O projétil que tinha como destino o Mar do Leste sofreu algum problema durante o voo e passou a se dirigir à Rússia. Para evitar maiores problemas os norte-coreanos preferiram explodir o artefato em pleno voo antes que acertassem quem não devia.

Sem a disponibilidade de um míssil intercontinental, a Coreia possui um míssil balístico de curto alcance. É o Nodong, de 1300 km de alcance. Assim, se a Coreia quiser atacar os EUA com sua arma será preciso se aproximar da costa americana. Disparando-o de seu território, o Nodong só chegaria até o Japão. Se quiser chegar nos EUA é preciso sextuplicar o alcance.

Mas é claro que as possibilidades não estão descartadas, afinal eles testaram um novo míssil em 2006, o chamado Taepodong-2. O míssil apresentou falha após 35 segundos do lançamento e caiu no oceano Pacífico. Pelo tamanho e combustível utilizado supõe-se que se trata de um míssil de 4 mil a 10 mil km de distância. Nada mais se falou após o incidente, portanto é complicado que ele esteja pronto para uso. Não se detona um MBI sem que ninguém veja.

Bom, “quase” nada mais se falou, pois em abril de 2012 o governo da Coreia do Norte organizou um grande desfile. Dezenas de jornalistas do mundo inteiro foram convidados a presenciar a parada. Confira algumas imagens:

A exibição pública do poderio bélico voltou a ocorrer em 2013 e as imagens foram divulgadas pela tv estatal coreana. As imagens foram analisadas e especialistas garantem que eles não passam de mísseis fakes. Confira a explicação aqui

Espero que nunca precisemos ver um desses em ação. Fiquemos apenas com a teoria sobre eles.

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