Por que o Brasil nunca ganhou o Prêmio Nobel?

Ganhar o prêmio Nobel é o ápice da carreira de qualquer pesquisador, porém nunca conseguimos ter um brasileiro na lista dos agraciados. Os motivos vão bem além de capacidade (que nós temos) e esbarram em picuinhas e marmeladas. Confira as vezes em que demos na trave e por que ainda não temos o nosso

Por Ciência

O Brasil é muito bom em diversas coisas, como: Futebol, zoeira na internet, memes, seletividade naquilo que nos interessa, party hard e ser trouxa. Mas parece que em alguns outros campos, tão importantes quanto, não conseguimos deslanchar.

Este é o caso da ciência. Sim, tivemos e temos excelentes cientistas por aqui. Na verdade, não tanto por "aqui", já que grande parte dos pesquisados em excelência (Marcelo Gleiser, Suzana Herculano-Houzel, MIguel Nicolelis, só para citar alguns da atualidade) acabam indo estudar, pesquisar e lecionar no exterior onde encontram melhores oportunidades e incentivos.

Também pudera; você ficaria em um local que não tem incentivo algum (nem mesmo reconhecimento moral por, diariamente, lutar contra todas as (in)condições e fazer das tripas, coração? O orçamento em pesquisa no Brasil beira o ridículo, ainda mais por estarmos entre os 10 países mais ricos do mundo. Temos muitos problemas? Sim, mas uma coisa não exclui a outra. Afinal, se você está todo ferrado e com várias doenças você não irá tratar a principal, deixando as outras para depois, torcendo para que, das outras, o destino se encarregue.

Os malefícios de não incentivar algo tão importante respingam em diversas áreas do Brasil de hoje. Se não temos pesquisa em níveis elevados para criar medicamentos e desenvolver a engenharia, imagine um laboratório de física em uma escola longe das capitais... Eu odiava física, mas talvez não pela física em si, mas porque nunca tive aula da seguinte maneira:

Eu poderia ser um baita homão físico da porra, mas não. Talvez por não ter sido incentivado quando novo, talvez não. Jamais saberemos.

E o problema nem sou eu. O problema são gerações e gerações de pessoas apáticas, desinteressadas, não-criativas, não-curiosas, etc. É complicado mensurar o impacto que décadas de falta de dinheiro bem aplicado nessa área nos causou até agora e, o pior, que vai nos causar no longo prazo, mas creio que temos um bom ponto de partida para saber nossa insignificância no mundo da pesquisa científica: Os prêmios Nobel.

O prêmio Nobel

Criado em 1901, após a morte de Alfred Nobel, um magnata sueco – no melhor exemplo dos polímatas da antiguidade – que foi químico, engenheiro e inventor e que fez fortuna com mineração, diversas patentes e, principalmente, explosivos são invenção de Nobel (entre muitos outros, ele criou a dinamite), área em que ele é um dos maiores nomes. Ao morrer, já muitíssimo rico, ele testamentou que parte de sua imensa fortuna (ele era rico mesmo) fosse destinada a criar uma fundação – The Nobel Foundation – que iria conceder prêmios àqueles que alcançassem avanços de “grande benefício para a humanidade”. 

Funciona assim: Existem 6 categorias do prêmio (física, química, medicina, literatura, paz e economia). Cada categoria tem seu próprio comitê especializado. Esse comitê tem a missão de solicitar, receber e analisar indicações de candidatos feitas por professores, cientistas e acadêmicos de todo o mundo. São cerca de 200 a 300 indicações por ano. Depois é só deixar aos cuidados do comitê. Cada um tem seu próprio método de como chegar aos finalistas.

Um exemplar dos explosivos criado por ele
Um exemplar dos explosivos criado por ele

Com os finalistas decididos. 4 instituições ficarão responsáveis por escolher os vencedores. São elas (com as respectivas categorias que julgam):

Os vencedores são anunciados em outubro, e, em 10 de dezembro – aniversário de Alfred Nobel – a cerimônia ocorre na Suécia. Além da medalha de ouro maciço os laureados levam uma quantia em dinheiro que, atualmente, é de mais de 1.3 milhão de dólares e o diploma atestado seu reconhecimento internacional. E somente os ganhadores são divulgados, quem perdeu na reta final só tem seus nomes tornados públicos 50 anos depois.

No entanto, algumas regrinhas devem ser seguidas, como: máximo de 3 pessoas dividindo um mesmo prêmio (mas pode ser uma organização, por exemplo, um laboratório que descobriu uma vacina e nele trabalharam 10 cientistas) e, estar vivo na ocasião. E, embora tenha parecido, não foi piada. O Nobel não é entregue postumamente, regra incluída em 1974 após 3 falecidos receberem.

De lá para cá já foram mais de 115 edições, 573 prêmios entregues a mais de 870 pessoas e 23 organizações. Dessas quase 900 pessoas, somente 48 eram mulheres (sim, a ciência ainda é predominantemente masculina), porém, entre elas, Marie Curie, que permanece como a única pessoa a levar o prêmio em duas categorias diferentes (Nobel de física, em 1903, pelo trabalho com a radioatividade, e, em 1911, Nobel de química por ter descoberto os elementos Rádio e Polônio).

Cerimônia do Nobel
Cerimônia do Nobel

E ao ver esse monte de premiados chegamos ao questionamento inicial: Por que nunca ganhamos nem mesmo uma vezinha sequer? A resposta é muito difícil, mas vamos tomar 2 rumos na conversa. Primeiro vamos ver os motivos que nos fazem ser insignificantes na ciência mundial, e, depois, as vezes em que quase chegamos lá.

Por quê?

Ninguém pode dizer que o Brasil não tem dinheiro, afinal mesmo com toda a crise e recuo de mais de meio trilhão de dólares na receita do país (dados estimados para 2016) em comparação aos anos de prosperidade (2008 ~ 2013), ainda estamos no top 10 dos maiores PIB’sdo planeta – mais precisamente na 9ª posição, com 1.7 trilhão de dólares, segundo o Banco Mundial, Nações Unidas e Fundo Monetário Internacional.

Segundo dados de 2013 do ministério de Ciência e Tecnologia investíamos 1.66% do PIB em ciência, o que nos garantiu a 70ª posição no ranking Global de Inovação (e olha que em 2013 estávamos dando coice na moita, com uma economia muito mais aquecida e “sobrando dinheiro” em relação ao cenário atual de 2017).

A meta do ministério é chegar aos 2% do PIB indo para a pesquisa científica, o que, em termos de porcentagem está legal. Países como Estados Unidos investem 2.7%, China 2.1%, Reino Unido 1.7%, Austrália 2.1%, etc. Exceções ficam em nomes como Áustria, Taiwan, Suécia, Dinamarca, Finlândia, Singapura e Japão (todos investem mais de 3% cada) e Israel e Coreia do Sul (os únicos do mundo a financiar com mais de 4% da economia a pesquisa científica). Estes dados são dos últimos 5 anos, provenientes deste levantamento feito pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (da qual o Brasil não faz parte)  e deste levantamento do Banco Mundial.

Claro que investir os mesmos números dos Estados Unidos não garante nada, até porque temos um fator importante a considerar quando se fala em porcentagem. Os 2.7% deles garantiram quase meio TRILHÃO de dólares para pesquisa e desenvolvimento em 2013, contra cerca de 60.5 bilhões do Brasil CASO tivéssemos investido a mesma fatia que eles naquele ano. A verdade é que injetamos apenas 37 bilhões, ou, os já citados 1.66% do referido ano.

E mais, nem mesmo o valor bruto investido parece garantir algum retorno. Ou então, como explicar Israel, que tem uma economia quase 10x menor que a brasileira (296 bilhões em 2015) e, mesmo investindo 4% do PIB (apenas 11 bilhões), tem 12 prêmios Nobel (4 em química 2 em Paz, 2 em Economia e 1 em Literatura)?

Pequeno detalhe: Os prêmios Nobel por país são contados pelo número de ganhadores, mesmo que eles dividam o mesmo prêmio, como no caso de Israel, visto avima. Faça as contas. Assim sendo 1 mesmo Nobel pode contar para até 3 países diferentes, caso eles dividam o prêmio. Quando falarmos do número de vitórias de determinado país daqui para a frente tenha isso em mente.

Continuando: Poderia ser uma das causas o tamanho gigantesco do Brasil que faz com que se pulverizem os recursos investidos a ponto de chegar tão pouca grana no destino final que, assim, não seja suficiente para algo relevante?

Talvez sim, talvez não. Veja o Canadá. Maior em extensão territorial, percentualmente quase o mesmo investimento e, menos dinheiro investido em termos brutos. Pois bem, Canadá tem 23 premiados com o Nobel.

Excluída essa pista, vamos para a próxima: As universidades. Segundo um artigo de pesquisadores americanos (sem ano definido, mas posterior aos anos 2000), o Brasil tem cerca de 900 locais de ensino superior, sejam universidades, faculdades ou qualquer outro tipo de educação superior e/ou profissional. Aqui encaixa o argumento anterior: o montante de recursos destinado à ciência e pesquisa espalhar-se-ia entre todos esses centros de ensino e aí já viu.

Mas o que dizer dos Estados Unidos, com seus mais de 4.750 centros de ensino e 363 prêmios Nobel? 

Faça as contas: 900 centros de ensino superior no Brasil com um orçamento de 37 bilhões: Dá 41 milhões de dólares per capita. Já os EUA, com sua dotação de 473 bilhões para suas, aproximadamente, 4750 instituições dá 99 milhões/cada. A diferença é grande, mas não o suficiente para garantir ou explicar alguma coisa.

E aí entra um dado fundamental para essa discussão: cultura. E não somente a cultura discutida lá no início do texto de pesquisar, ser curioso desde pequeno, etc. Essa também, mas há uma outra cultura que vem em conjunto com essa de grana e de universidades. Vou explicar:

Você tem alguma ligação com a universidade ou com a escola na qual se formou? Você tem uma ligação tão forte ao ponto de fazer doações voluntárias de dinheiro em somas bastante altas? Muitos possuem 0 gratidão pelos locais onde aprenderam quase tudo que sabem, inclusive a profissão que carregarão para o resto da vida, mas não é culpa sua, é algo muito maior.

Bom, mas sem fazer julgamentos de coisas impalpáveis, vamos a alguns dados exatos: Veja 3 orçamentos das universidades estrangeiras. Duas são americanas e a outra é inglesa:

Sim, apenas Harvard recebeu de doações de seus ex-alunos mais do que temos destinado a TODAS as universidades e centros de pesquisa do Brasil juntos. Isso explica muita coisa. O senso de pertencimento a uma instituição, a vontade de fazer com que ela seja reconhecida como uma das melhores e, consequentemente, você leve prestígio por isso gera uma “obrigação” em compartilhar um pouco da sua talvez recém-adquirida fortuna com aqueles que foram responsáveis por ela com. Assim, com doações milionárias de ex-alunos agradecidos estes centros de excelência conseguem receber muito mais dinheiro do que aqueles repassados pelo governo. 

Aqui está um bom exemplo disso. Na verdade, brasileiros também doam, sim, mas só para as estrangeiras. É o caso de alguns empresários bem-sucedidos que estudaram em Harvard ou Stanford e anualmente depositam uma grana em suas contas em reconhecimento aos serviços prestados.

John Paulson oficializa sua doação de 400 milhões de dólares a Harvard
John Paulson oficializa sua doação de 400 milhões de dólares a Harvard

Mas a intenção não é decidir porque eles têm essa cultura e a gente não, no entanto, se você quiser aprofundar a discussão sobre esse tema recomendo a leitura da obra Bandeiras e Pioneiros do estudioso Viana Moog. Ela ajuda a entender a entender como somos e por que somos e como os americanos/inglês são e por que são. E para aprofundar a discussão no porquê as universidades precisam dos fundos privados, clique aqui

Resolvido de onde sai tanto dinheiro para as universidades estrangeiras, há alguns outros pontos que podem ser apontados em nosso falho sistema que nem mesmo com todo o dinheiro poderia resolver, como, por exemplo, a burocracia.

Sim, não é novidade nenhuma que vivemos em um dos países mais burocráticos do mundo. Sem exageros. Estamos em 122º lugar, em uma lista de 178. Somos mais engessados do que o Mali, a Colômbia, Botsuana, Cazaquistão, Uganda, Sri Lanka, etc. Dados do Heritage.     

E é claro que isso impacta na produção científica. Lygia Da Veiga Pereira, uma das maiores cientistas do Brasil, responsável pela primeira linhagem de células-tronco embrionárias de multiplicação in vitro no país disse que a importação de material para sua pesquisa cerca de 3 meses, tempo em que os estudos ficam paralisados. Ela ainda disse que nos EUA a mesma liberação leva 1 dia. Lembro-me de conversar com um amigo que foi para a Austrália através do finado Ciências sem Fronteira e disse que ficou espantado com a velocidade de entrega de uns matérias solicitados. Mesmo ele sendo estudante de graduação, só precisou solicitar a compra de materiais com o encarregado do laboratório e no dia seguinte as coisas estavam por lá. Um misto de dinheiro sobrando e vontade de fazer acontecer? Talvez.

Até mesmo o pessoal que foi (ou não foi) ao exterior através do finado Ciências sem Fronteiras, sofreu com isso. Tudo porque o CNPQ (órgão responsável pelas pesquisas científicas e afins no país e que estava no controle do programa) não aceitava documentos digitais de que o candidato tinha o domínio da língua. E mesmo com a garantia da autoridade em proficiência na língua, os candidatos precisavam entregar as cópias dos originais.

A liberação para testes de novos remédios em pacientes é outro caso que também poderia ser evocada aqui para enfatizar este quadro. Nós levamos mais do que o dobro de tempo do que os colegas da Argentina e Chile, por exemplo, mas, para não me alongar neste quesito, nada melhor do que o exemplo máximo do Inpi – Instituto Nacional de Propriedade Intelectual. 

É neste local que ocorre o registro de patentes e que garante que você é o criador de algo e poderá gozar de todos os benefícios provenientes da sua ideia e esforço. Mas com tanta burocracia, toneladas de papel para analisar e poucos funcionários, uma patente demora em média 11 ANOS para ser registrada. São mais de 1800 projetos aguardando avaliação dos míseros 200 servidores. Tudo isto fez com que, somente em 2016, um celular de flip, sem touchscreen e acesso à internet fosse patenteado. É sério, e até virou notícia

Mas como o que está ruim, sempre pode piorarm tivemos, recentemente, a pá de cal sobre a história de fazer ciência no Brasil. O importantíssimo Ciências sem Fronteira foi extinto para os estudantes de graduação tão logo Michel Temer tornou-se presidente interino, ainda em junho de 2016. Essa não foi a primeira medida falha: teve também a junção dos ministérios e, consequentemente, a diminuição dos recursos a cada um. Neste caso o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação agora está agregado ao ministério das Telecomunicações.

Sem estender-me em assuntos tão nebulosos como a Pec 55, deixo uma frase que sintetiza em 1 linha o que eu ia levar 2 parágramso para transmitir. Ela foi cunhada por Darcy Ribeiro, sociólogo, em 1977:

A Crise da Educação no Brasil não é uma Crise, é um Projeto.

No meio disso tudo os cientistas (alguns deles baseados no exterior, onde podem pesquisar) afirmam que a ciência saiu perdendo mais uma vez; o governo, por sua vez, diz que não. 

Hoje contamos com o programa de Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (Encti) 2016 – 2019. O programa, lançado pelo MCTIC, estabelece como prioridade para os próximos anos a

  • Promoção da pesquisa científica básica e tecnológica
  • Modernização e ampliação da infraestrutura de ciência, tecnologia e inovação
  • Ampliação do financiamento para o desenvolvimento de ciência, tecnologia e inovação
  • Formação, atração e fixação de recursos humanos; e
  • Promoção da inovação tecnológica nas empresas

O objetivo é aprimorar as pesquisas no Brasil, aumentar a produtividade, reduzir as diferenças regionais e posicionar o país entre os maiores no assunto. O documento também elenca 11 áreas foram selecionadas para receber o incentivo: aeroespacial e defesa; água; alimentos; biomas e bioeconomia; ciências e tecnologias sociais; clima; economia e sociedade digital; energia; nuclear; saúde; e tecnologias convergentes e habilitadoras. Como trunfo, o programa promete alcançar o, já citado, investimento mínimo de 2% do PIB até 2019. Veremos.

Ahh, e como o post já está enorme, nem vou me ater ao terrível problema dos níveis mais básicos da educação no Brasil, tanto nas escolas públicas, como nas particulares. Ao analisarmos os resultados de 2015 do Pisa, o ranking do ensino no mundo, pode,ps ver qie ficamos em 67º lugar na categoria “matemática”, 64º em “ciência” e 61º em “leitura e compreensão do que se lê”. P.S. O ranking tem 72 posições, ou seja, estamos entre os 15% piores em cada uma das categorias.

Mas, é preciso que se diga que há um diferencial e uma ponta de esperança: Se analisarmos somente as escolas federais iremos ver que o Brasil alcança índices de países desenvolvidos. A solução seria federalizar o ensino desde os níveis mais baixos? Talvez, mas enquanto esse dia não chega, seguimos como dá =(

E assim segue o baile. Se você ficou desmotivado como mente criativa em se tornar cientista, nada de anormal. Somente isso pode explicar porque somos um dos últimos países na relação pesquisadores por milhão de habitantes (vide gráfico acima).

Certamente a discussão é longa e não acaba por aqui, mas acho que já dá para termos uma base do por que estamos tão ferrados. A seguir, como prometido, as vezes em que demos na trave.

Foi por pouco...

Ao todo 76 países já receberam um Nobel, entre eles o Tibet, Vietnam, Venezuela, Quênia, Mianmar, Peru, Irã, Chipre, Egito, Azerbaijão, Bangladesh, entre outros. Mas como a gente não é “imitão”, nem “modinha”, ainda não recebemos o nosso.

Vejamos por categoria como nos saímos até aqui:

Medicina 

Se não levamos o prêmio, não foi por falta de indicações ou de merecimento. Desde o início da premiação já tivemos 106 indicações conhecidas (lembre-se que elas só são públicas após 50 anos do prêmio) e, até mesmo, 1 vitória. Ou melhor, mais ou menos uma vitória, e, para registros oficiais, uma vitória britânica. 

Isso porque o zoólogo e imunologista brasileiro Sir Peter Brian Medawar, vencedor na categoria Medicina em 1960 por seu trabalho com a descoberta da tolerância imunológica adquirida naturalizou-se britânico após mudar-se para o país europeu onde faria seus estudos em Oxford. O prêmio fora dividido com seu colega, o também britânico Sir Frank Macfarlane Burnet Medawar e foi fundamental para que os transplantes alcançassem o grau de desenvolvimento de hoje em dia.

Sem a descoberta os transplantes não dariam certo, devido a rejeição de órgãos (o que ainda acontece em alguns casos).

Hoje ele é mundialmente reconhecido, principalmente na Inglaterra onde tem, inclusive, laboratórios de pesquisa com seu nome. Uma pena que nem ao menos tentemos roubar essa celebridade para nós, como fizemos com o jogador Deco, da seleção de Portugal, que todo mundo gosta de lembrar que é brasileiro e, quando em atividade, seria um ótimo reforço pra seleção brasileira. 

Mas se nunca ganhamos um prêmio na Medicina não foi só porque Peter naturalizou-se britânico. Na verdade, merecíamos ter levado essa décadas antes dele iniciar os estudos.

Carlos Justiniano Ribeiro Chagas, melhor conhecido como Carlos Chagas, foi um sanitarista, cientista e bacteriologista que, até hoje, é reverenciado como um dos maiores cientistas da medicina da primeira metade do século XX e o maior nome em doenças tropicias que já existiu. Tudo porque conseguiu detalhar uma doença contagiosa em seu ciclo completo (patógeno, vetor, hospedeiro, manifestações clínicas e epidemiologia), isso tudo com a precária infraestrutura do Rio de Janeiro da primeira década de 1900.

Entre outras descobertas e contribuições (Malária, por exemplo), o seu maior feito – que lhe rendeu um total de 2 indicações, em 1913 e 1921 – foi o Mal de Chagas que revolucionou o entendimento e combate a doenças parasitárias. Especula-se que nunca tenha levado o prêmio por motivos políticos decorrentes da República Velha e, também, por ser um pesquisador latino e sem indicadores de peso. Hoje ele é mais reconhecido internacionalmente do que aqui no Brasil.  

Ainda no prêmio de Medicina tivemos as indicações dos Brasileiros Antonio Fontès – em 1934 pelo trabalho com tuberculose  e Adolpho Lutz – indicado em 1938 pelo trabalho com doenças tropicais. Mas nada se compara as 6 indicações de Manoel de Abreu.

Você já ouviu falar em Abreugrafia? Se você nunca ouviu, fique feliz, pois era uma radiografia aplicada nos pulmões que se tornou a principal e mais eficiente forma de detectar a tuberculose. Amplamente utilizada até os anos de 1970 quando surgira os antibióticos e a tuberculose entrou em declínio. Manoel de Abreu salvou milhares de vida, mas nem mesmo isso foi capaz de lhe garantir uma honra.

Física 

Embora não tenhamos tradição na pesquisa em física aplicada, quase chegamos lá por 3 vezes. Uma destas vezes foi com a indicação do americano naturalizado brasileiro David Bohn (na imagem ao lado) em 1958 por ter contribuído para as teorias de teoria quântica, neuropsicologia e filosofia da mente.

Ao avançar seus estudos em física quântica ele percebeu que o antigo modelo cartesiano de realidade (onde há 2 tipos de essência: a mental e a física) era muito limitado. Para explicar suas ideias ele criou um novo campo na física teórica e por isso é lembrado como um dos maiores físicos do século XX.

O outro físico teórico brasileiro indicado (2 vezes) foi César Lattes, o nosso próprio Einstein. Ele foi um dos responsáveis pela descoberta do pion, uma partícula subatômica feita de 1 quarck e 1 antiquark, ou, se você preferir, o Méson pi. Embora tenha sido o primeiro pesquisador e a primeira pessoa do mundo a descrever esta partícula, o prêmio Nobel de 1950 foi agraciado somente ao líder da equipe que trabalhava com ele, já que até 1960 a política burra do Nobel era premiar somente o líder dos trabalhos.

Em 2001 ele explicou em entrevista porque foi preterido injustamente por 2 vezes:

Sabe por que eu não ganhei o prêmio Nobel? Em Chacaltaya, quando descobrimos o méson-pi, se publicou: Lattes, Occhialini e Powell. E o Powell, malandro, pegou o prêmio Nobel pra ele. Occhialini e eu entramos pelo cano. Ele era mais conhecido.E para dar ainda mais sensacionalismo ainda, engana-se quem pense que o Nobel não guarda histórias de intriga em voltas das premiações. Especulou-se por muitos anos que Niels Bohr, um dos mais importantes físicos dos últimos tempos e vencedor do Nobel tenha deixado uma carta intitulada “Por que César Lattes não ganhou o Prêmio Nobel - Abra 50 anos após a minha morte“. No entanto, tal carta nunca foi encontrada.

Mesmo sendo rejeitado pela academia sueca de ciência, o trabalho de Cesar Lattes foi fundamental para o desenvolvimento da física atômica e ele foi devidamente reconhecido aqui no Brasil, tendo o seu nome empregado no banco de dados da ciência brasileira, a Plataforma Lattes.

Química 

Observação: Caso você clique no link acima verá que há um erro, qual seja: René Wurmser aparecer como brasileiro, enquanto é francês. No lugar dele deveria estar o brasileiro Otto Gottlieb, mas que ainda não aparece por não ter se passado 50 anos de sua indicação.

Começando por ele então, Otto que não é bem um brasileiro, mas outro naturalizado. De origem tcheca veio para o Brasil antes de iniciar os estudos devido ao regime nazista. Durante sua carreira foi um dos mais prolíficos pesquisadores, trabalhando em diversas universidades e centros de pesquisa e escreveu mais de 700 artigos sobre sustentabilidade e metabolismo nas plantas. Foi indicado em 1998, 1999 e 2000 segundo A Folha de São Paulo (não me perguntem como eles sabem disso).

O outro grande indicado brasileiro de química é mais um rapazinho naturalizado. Fritz Feigl nasceu na Áustria e naturalizou-se brasileiro após vir para cá durante o regime nazista. Ele teve um total de 5 indicações, principalmente pela criação do método de Análise de Toque, um método simples e eficiente em que as provas são executadas em somente uma ou poucas gotas de solução, sem utilizar instrumentação (a técnica foi ensinada às populações ribeirinhas pobres do Amazonas que sofriam com o consumo de peixes contaminados por chumbo e passaram a descartar os peixes impróprios).

E se você é fã de Dexter, CSI ou qualquer outra série de investigação criminal, deve muito a Fritz, o inventor do Luminol, aquela substância que tanto amamos e dá graça à investigação criminal.

Embora não tenha ganho o prêmio principal da Ciência, hoje existem 2 prêmios chamados Fritz Feigl: o brasileiro (que é a maior honraria que um químico pode receber em nosso país) e o austríaco, entregue pela Sociedade Austríaca de Química Analítica. 

Literatura 

Tivemos grandiosos nomes dentro da literatura que poderiam concorrer ao prêmio nesta categoria, como o nosso maio escritor de todos os tempos, Machado de Assis, que publicara Esaú e Jacó em 1904, dando tempo para brigar pelo Nobel em uma de suas primeiras edições.

Mas mesmo que não tenhamos nenhum medalhão, ainda tivemos alguns indicados nesta categoria. São nomes pouco conhecidos, até mesmo àqueles do ramo literário, mas tentaram. Nomes como Enrique Neto (que teve 3 indicações em 1933), Flávio de Carvalho (em 1939), Manoel Wanderley (em 1941) e Alceu Amoroso Lima (1965).

Acho que o Nobel de Literatura ficará comigo mesmo quando publicar minha obra. Até lá aguardem.

Paz 

Parece que somos mesmo um pessoal muito pacífico, ao menos é o que o Nobel aponta. Do total de 106 indicações mostradas no site oficial da premiação, 81 são desta categoria.

O maior de todos os indicados foi Afranio de Mello Franco, que recebeu nada mais nada menos do que 46 indicações (43 delas em 1935, 2 em 1937 e 1 em 1938). Afranio foi um diplomata que abandonou a carreira para ser político. Com altos postos no governo chegou, inclusive, a ser um “quase-presidente” já que por um longo período de tempo ele despachou durante a doença do presidente Delfim Moreira. Sua enxurrada de indicações são resultado da sua participação ativa na Guerra do Charco, entre Bolívia e Paraguai, e, entre Peru e Colômbia nos conflitos do porto de Letícia.

A título de curiosidade: Quem conseguiu desbancar o brasileiro e levar o prêmio naquele ano foi Carl von Ossietzky um alemão que traiu o regime nazista em 1931 e expôs ao mundo muito do terror que estava prestes a acontecer. Lembre-se que e a guerra não estouraria antes de 1939.

Outro brasileiro que merece destaque na categoria é o famoso Marechal Candido Randon, que foi imortalizado ao dar nome ao estado de Rondônia. Foram 10 indicações (4 em 1953 e 6 em 1957).

Ele foi o responsável por estabelecer as conexões entre as longínquas e afastadas regiões do Brasil com a área civilizada. Assim sendo expedicionou diversas vezes em missões de reconhecimento e instalação de linhas telegráficas em meio a florestas e, sempre mantendo relações cordiais com tribos indígenas. Mesmo quando atingido por uma flecha envenenada certa vez, ordenou que sua tropa batesse em retirada e não revidassem o ataque. Esse homem merecia o Nobel da paz.

Hoje ele é lembrado nos mais diversos pontos da nossa história e cultura, desde um nome de estado até patrono de comunicação das forças armadas, porém, um dos seus maiores reconhecimentos internacionais é uma carta escrita pelo próprio Albert Einstein e endereçada ao comitê do Nobel da Paz que pedia a indicação do homem à honraria (já que Einstein não podia indicar alguém em uma categoria diferente da sua).

E para citar apenas mais 1 que merecia ser o Nobel da Paz, está Oswaldo Aranha, o homem responsável pelo voto de minerva na ONU que resultou na criação do estado de Israel e assentamento do povo judeu. Foram 9 indicações 1948. E eu garanto para você: Vá em qualquer cidade do mundo que tenha um bairro judeu e lá você encontrará uma rua com o nome “Oswaldo Aranha”, um parque, etc. Homenagens não faltam como a capa da revista Time. Foi somente o Nobel que não veio mesmo =/

Além desses foram indicados Josué de Castro (7 vezes), Raul Fernandes (3 vezes), Henrique Vasconcellos (1 vez), o Barão de Rio Branco (2 vezes), Erico Gama Coelho (1 vez), Teixeira Mendes (1 vez) e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (1 vez).

Agora que já vimos todas as categorias, uma a uma, fica claro que cada prêmio teve sua própria controversia, intriga, peso do comitê que influenciou, etc. Mas fica um questionamento acima de tudo isso: Barack Obama levou o Nobel da Paz mesmo tendo bombardeado intensamente locais como a Síria, na qual já soma-se mais de 150 MIL mortes (segundo o número mais otimista), muitas delas causadas pelos americanos.

Vai entender.

Indicações possíveis

Como já batemos na tecla: As indicações só são reveladas 50 anos após o prêmio, então, talvez, estejamos concorrendo anualmente e não saibamos. Cacife para isso nós temos, por exemplo:

Miguel Nicolelis – Diretor do laboratório de neuroengenharia da Universidade de Duke, nos Estados Unidos. Foi o primeiro e único brasileiro a ter sido a capa da revista Science, graças ao seu trabalho que está trazendo grandes contribuições para o estudo dos implantes cerebrais e como, através dos sinais neurais, os macacos movem braços mecânicos ou movem um robô à distância. O exoesqueleto criado por Nicolelis deu uma polêmica na época das Olímpiadas do Rio, lembra?  

Maria da Penha – Conhecida por uma triste história, Maria da Penha ficou paraplégica após constantes agressões que culminaram numa tentativa de homicídio pelo marido na década de 1980. Por conta do ataque ela ficou paraplégica, decidiu não se calar, virou lei e hoje é símbolo de luta para mulheres que sofrem abuso em seus relacionamentos. No ano em que a lei completa 10 anos de vigência (2017) Maria da Penha será indicada pelo governo brasileiro ao Nobel da Paz. Em dezembro saberemos se ganhamos ou não. 

Mano Brown – Sim, desde que Bob Dylan ganhou em 2016 o Nobel de Literatura e abriu uma nova gama de possibilidade – os músicos – crescemos na briga e temos grandes letristas que poderiam ser indicados. Muito mais do que Chico Buarque ou qualquer outro artista considerado “erudito” eu apostaria em Pedro Paulo Soares Pereira, vulgo Mano Brown. Quando Bob Dylan foi eleito não foi por suas músicas serem bonitas ou legais de escutar, mas sim por toda uma trajetória de contestação social e apontamento dos problemas, principalmente em relação às guerras travadas pelos EUA, mas, convenhamos: Mano Brown dá um baile em Bob Dylan nestes quesitos.

Não indicados

Ser indicado significa, além de ter importância na área, ter a simpatia dos estrangeiros, não ser preterido por um concorrente do mesmo país de quem indica, livrar-se dos estereótipos contra os países do 3º mundo, entre outras condições, e, infelizmente, muitas vezes parece que não conseguimos.

Muitos brasileiros esriveram plenamente capacitados para concorrer e levar um Nobel, mas, pela regra de estar vivo já não podem mais. Confira alguns nomes que poderiam ter vencido a honraria, mas que nem sequer foram lembrados.

Alberto Santos Dumont – Inventor prolífico que também desenvolveu o dirigível, sua mais famosa obra é o avião. Mesmo que se discuta se o título de inventor do avião é do brasileiro ou dos irmãos Wright, uma coisa é inegável: o modelo americano era lançado com o uso de uma catapulta e o “nosso” fazia uso apenas da física. Se o fato de levantar voo com algo mais pesado que o ar sem auxílio externo não merece um Nobel de física, não sei mais o que pode merecer.

Adolpho Lutz – Você pode até não o conhecer, mas faz uso de sua invenção diariamente e deve muito a esse físico, pai da medicina tropical, pesquisador das doenças contagiosas e um dos pioneiros da epidemiologia. O motivo: O leite que tomamos diariamente. Sim, quando ele propôs que o leite deveria ser pasteurizado para que se evitasse a transmissão da tuberculose bovina, ele foi ridicularizado. Hoje, duvido você encontrar um leite vendido que não passe por este processo. Além disso ele foi o cara que descobriu que o famigerado mosquito Aedes Aegypti era o transmissor da febre amarela.

Osvaldo cruz – Mais um bacteriologista e sanitarista brasileiro que salvou muita gente. Ele foi o responsável pelas campanhas de vacinação que combateram a febre amarela, varíola e a peste bubônica em cidades portuárias. Também é o responsável por trás da Revolta da Vacina.

Mario Schenberg – Considerado até hoje como o maior físico brasileiro de todos os tempos, desenvolveu o Processo da Urca (nome escolhido após uma comparação com o sumiço do dinheiro nos cassinos da Urca). A teoria, desenvolvida com George Gamow, explica a perda de energia nas supernovas.

Mauricio Rocha e Silva – Físico e biomédico e farmacologista que descobriu diversas doenças e, curas ou princípios ativos que ajudassem nas mesmas. Revolucionou a medicina ao descobrir a Bradicinina, substância que seria usada para o controle da pressão arterial.

Sergio Henrique Ferreira – Aqui mais um caso de injustiça. Através da mesma Bradicinina citada acima, este farmacologista desenvolveu – em conjunto com seu colega britânico John Vane – remédios para a pressão. Acontece que o inglês recebeu o Nobel de Medicina alguns anos depois por um trabalho decorrente desse primeiro.

Zilda Arns e Paulo Evaristo Arns – Zilda foi uma pediatra que fundou a Pastoral da Criança e ficou conhecida mundialmente pelos trabalhos realizados em diversos países. Acabou morrendo em 2010 em decorrência do terremoto que devastou o Haiti naquele ano, onde estava em missão. Um pedido de canonização está correndo para torná-la santa.

E quando a família dá boa, ela dá boa, viu? O irmão de Zilda, Paulo Evaristo Arns, também poderia estar entre os vencedores de um prêmio Nobel. Conhecido por enfrentar a ditadura e defender o liberdade dos perseguidos, por diversas vezes ele fez uso da tão falada, e tão pouco praticada, caridade cristã. Por exemplo, ele vendeu construções e palacetes de propriedade católica para construir e manter orfanatos para crianças carentes. Chegou ao posto de arcebispo de São Paulo antes de virar cardeal e, quase, ser eleito papa, porém, o Nobel não veio.

Bom, ainda não ganhamos um Nobel, mas talvez consigamos em breve com Maria da Penha, Nicolelis ou algum outro nome de peso que tenha sido sugado pelas possibilidades de pesquisar no exterior. No cenário atual considero que um Nobel seria um “lance de sorte” e um Nobel devidamente bem fundamentado em uma tradição de pesquisa em excelência, esse sim vai demorar algumas gerações.

Mas como disse César Lattes em sua última entrevista pública:

Deixa isso para lá. Esses prêmios grandiosos não ajudam a ciência

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