Quem leu o artigo sobre a história da SpaceX sabe que a empresa passou por alguns perrengues até se estabilizar, colocar uma espaçonave em órbita e catar seus primeiros contratos. Na ocasião, não entrei em muitos detalhes para não alongar ainda mais o post, mas a história é interessante e merece uma análise aprofundada. Portanto, declaro: Chegou a hora de vermos de perto a quase falência da SpaceX.

Antes de você começar a ler este maravilhoso artigo, uma informação importante: Infelizmente ele não é de minha autoria, mas de Eric Berger, e foi publicado originalmente no site Ars Technica. Eu apenas tomei a liberdade de traduzi-lo para que mais pessoas possam ter a oportunidade de ler tal conteúdo.

Assim, segue a leitura.

O antes

Eles se acomodaram em um trailer duplo, amontoando-se em camas e sacos de dormir, até uma dúzia de cada vez. De manhã, eles se deliciavam com pratos fumegantes de ovos mexidos. À noite, sob alguns dos céus mais escuros da Terra, eles grelhavam bifes e se perguntavam se os céus acima estavam além de seu alcance. Jovens, a maioria deles, estavam sozinhos no meio de uma pequena ilha no meio do Oceano Pacífico. Era o meio do nada, na verdade.

E eles trabalharam. Eles trabalhavam desesperadamente - consertando, testando e consertando - esperando que nada desse errado dessa vez. Seu pequeno foguete já havia falhado três vezes. Mais uma anomalia de lançamento provavelmente significava o fim da Space Exploration Technologies, antes de ser rebatizada como SpaceX.

Em três ocasiões, 2006, 2007 e 2008, a SpaceX tentou lançar um foguete Falcon 1 da Ilha Omelek no Oceano Pacífico, uma plataforma de coral talvez um metro acima do nível do mar e do tamanho de três campos de futebol. Menos de dois meses após o último fracasso, o dinheiro estava acabando. A SpaceX tinha apenas um foguete final para lançar, com apenas alguns componentes sobressalentes restantes em sua fábrica na Califórnia.

O Falcon 1 sobe em direção ao espaço em seu quarto e decisivo voo
O Falcon 1 sobe em direção ao espaço em seu quarto e decisivo voo

"Todos nós sabíamos que as apostas eram incrivelmente altas", Zach Dunn lembrou daquele período febril em 2008. Desta vez, o Falcon 1 tinha que funcionar. E aqueles jovens sabiam disso. Com apenas um ano de pós-graduação e 26 anos de idade, Dunn, foi engenheiro sênior durante o primeiro estágio do foguete. "Foi tenso. Houve muita pressão."

Hoje, é difícil imaginar o mundo da indústria aeroespacial sem a SpaceX. A United Launch Alliance, a Arianespace, os russos e os chineses provavelmente ainda dominariam a indústria de lançamento, com seus preços sendo um segredo bem guardado. Uma década atrás, esses gigantes da indústria viram em Elon Musk apenas como mais um iludido que deveria ser deixado de lado, como muitos outros que vieram antes. A ideia de reutilizar um foguete orbital para diminuir o custo de acesso ao espaço? Risível. Marte?! Esse piadista da África do Sul não conseguia nem colocar um foguetinho monomotor em órbita.

Isso, e mais, estavam em jogo naquele 28 de setembro de 2008, quando a SpaceX tentou, novamente, se tornar a primeira empresa privada a desenvolver e colocar em órbita um foguete.

"Isso é algo que apenas nações haviam feito antes, porque as barreiras à entrada eram tão altas", disse Chad Anderson, do grupo de investimento Space Angels, sobre o desenvolvimento privado de um foguete orbital. "Ir de zero a um é realmente muito difícil. E foi o que a SpaceX fez. Aquele cara e essa empresa estão nadando contra o rio e lutando por tanto tempo para fazer aquilo acontecer. "

Dez anos depois, a indústria passou por uma reestruturação radical. Os titãs da indústria aeroespacial se esforçaram para se refazer, ou morrer, no novo mundo, onde Musk não é um novato tentando se encaixar, mas o principal protagonista. Seguindo a esteira da SpaceX, mais de 100 empresas privadas em todo o mundo estão tentando realizar o mesmo feito com foguetes de vários tamanhos.

Não há dúvida de quem foi que abriu caminho embrenhado nos cafundós dos trópicos do Pacífico. Poucos dias antes da quarta e possivelmente última tentativa de lançamento do foguete Falcon 1, Dunn deixou Omelek de barco, fazendo a viagem para "o Kwaj", ou Ilha Kwajalein. Esta ilha vizinha também era pequena, medindo cerca de 4 km de comprimento e várias centenas de metros de diâmetro. Mas era um continente comparado ao Omelek e lar do centro de controle de lançamento da SpaceX.

Zach Dunn com o motor Merlin que impulsionou o bem sucedido quarto voo do foguete Falcon 1
Zach Dunn com o motor Merlin que impulsionou o bem sucedido quarto voo do foguete Falcon 1

Na manhã do lançamento, Dunn se sentou no console em um bunker no Kwaj, monitorando a saúde do motor Merlin-1 e os tanques de combustível no primeiro estágio. Quando o foguete decolou, ele assistiu, esperando que não explodisse. Gritos e comemorações irromperam dentro do bunker cerca de três minutos após o voo, quando o segundo estágio se separou do foguete. Então vieram seis minutos agonizantes quando o motor do estágio superior do Falcon, chamado Kestrel, teria que queimar, necessário para mostrar aos possíveis clientes que o foguete poderia colocar seus satélites em uma órbita adequada. E queimou.

"Quando Kestrel desligou, o lugar explodiu", lembrou Dunn do bunker. "Nós ficamos absolutamente loucos. Nós estávamos todos pulando. Abraçando um ao outro. Gritando. Foi uma celebração justa."

A festa no Pacífico duraria a noite toda. No dia seguinte, a SpaceX começaria de novo em seus esforços para conquistar o mundo aeroespacial. Desta vez, não falharia.

O início

Hans Koenigsmann entrou na SpaceX como empregado número quatro. Ele veio para a SpaceX em 2002 de outra empresa aeroespacial no sul da Califórnia, a Microcosm. (A dinâmica presidente e diretora de operações da SpaceX, Gwynne Shotwell, o seguiria vinda da mesma empresa alguns meses depois.) Logo, Koenigsmann começou a trabalhar em um sistema de aviônica para um foguete, o cérebro que controla o avião durante o voo.

Com um mandato da Musk para reduzir custos, Koenigsmann teve que decidir o que comprar e o que construir internamente, e ele teve que contratar uma equipe de engenheiros. Ao sair de uma empresa estabelecida, o alemão Koenigsmann, assumiu um grande risco, deixando um emprego confortável para um empreendimento completamente não testado, cujo fundador já estava falando de Marte.

Koenigsmann não se juntou à SpaceX porque acreditava nessa missão. "Eu só queria desenvolver um foguete com uma pequena equipe, e não 15.000 pessoas como tinha feito até então", disse ele. "Eu queria mostrar que você poderia fazer isso com 200 caras".

Inicialmente, a SpaceX queria lançar a partir da Base da Força Aérea de Vandenberg, localizada a algumas horas de carro ao norte de sua sede no sul da Califórnia. Mas as grandes empresas de foguetes, entre elas a Boeing e a Lockheed Martin, que usavam essa instalação para o lançamento de seus foguetes, e os militares e seus contratados não aceitaram de boa a novata.

Então, eventualmente, a SpaceX olhou para o oeste. Longe a oeste, a uma base do Exército a 8.000 km de distância cercada por vastas extensões de oceano azul. Lá não havia fila de espera para lançar. Quando a SpaceX precisava de autorização, geralmente a recebia com prioridade. "Não estávamos mais nas sombras de outras empresas maiores, então isso nos ajudou", disse Koenigsmann.

Até hoje, ele pode se lembrar da rota de Los Angeles para Kwaj. Faça um voo à tarde ou à noite do LAX para o Havaí. Passe a noite lá e pegue o voo das 7 da manhã para as Ilhas Marshall do Portão 14. Ele fez várias paradas ao longo desta rota uma vez por dia, e uma delas era a Kwaj.

Uma vez lá, os funcionários da SpaceX costumavam andar de bicicleta pela ilha, com areia, surfe e palmeiras. Quando não passavam a noite no Omelek, ficavam no hotel de Kwajalein, chamado Macy's, que não tinha nada a ver com a famosa loja de departamentos americana de mesmo nome. "Parece um pouco como uma ilha tropical, mas é uma versão do Exército de uma ilha tropical", disse Koenigsmann. "Então o hotel era a versão do exército de um hotel. Cada peça de mobília tinha um número do governo dos Estados Unidos.

Hans Koenigsmann com sua família e o Falcon 1, em Omelek
Hans Koenigsmann com sua família e o Falcon 1, em Omelek

Demorava uma hora de barco para chegar à Ilha Omelek, onde a SpaceX construiu sua própria plataforma de lançamento e um hangar para seu foguete Falcon 9. Normalmente, um foguete chegaria três ou quatro meses antes de seu voo e exigiria uma longa série de ajustes e testes antes do dia do lançamento.

"É bem singular e as pessoas gostavam ou odiavam; ninguém era realmente neutro ", disse Koenigsmann sobre a vida na ilha do Pacífico. Quanto ao alemão, realmente a meio mundo de distância de sua casa, ele gostava daquele lugar embaixo dos escuros céus do Pacífico. A ilha lembrou-lhe por que ele tinha ido lá em primeiro lugar. "Isso me deu uma sensação real de afastamento e quão grande este planeta realmente é", disse ele.

E também ensinou a ele como é muito difícil romper a gravidade da Terra.

Três falhas

Fundada em 2002, a SpaceX chegou à plataforma de lançamento com um foguete orbital apenas quatro anos depois. No meio da manhã, no dia 24 de março, o Falcon 1 decolou para o voo inaugural de Omelek. Inicialmente, o pequeno foguete subiu constantemente para longe da pequena ilha. Mas depois de cerca de meio minuto, com o combustível vazando dentro do foguete, o veículo, basicamente, queimava enquanto subia. O resultado foram pedaços do Falcon 1 caindo de volta à Terra.

Poucas horas depois, os engenheiros tinham saído dos Kwaj até Omelek para salvar o que podiam. Para os jovens empreendedores de sucesso que se juntaram à SpaceX com grandes sonhos, isso seria um momento decepcionante.

"Voltar lá e juntar as peças foi, pessoalmente, algo com o qual lutei por alguns meses", lembrou Koenigsmann. "Eu não estava acostumado a não ter sucesso. Mas isso faz parte do negócio, e eu tive que me acostumar com isso. Você tem que lutar muito, porque senão vai surtar."

Quase um ano depois, tendo superado os demônios do primeiro voo, Koenigsmann e os outros engenheiros voltaram para Omelek com o segundo foguete Falcon 1. Este voo se mostrou mais promissor. O impulsionador atingiu uma altitude de 289 km, voando para o espaço e seguiu sua rota prescrita. Depois que o primeiro estágio ser consumido, o segundo estágio se soltou. No entanto, uma oscilação harmônica começou aos 265 segundos do voo e ficou cada vez mais instável até 474 segundos, quando o motor Kestrel desligou cedo demais. A equipe poderia, pelo menos, ficar feliz com a performance perfeita do primeiro estágio.

"Esta missão representa um grande passo à frente para a SpaceX e o veículo de lançamento Falcon 1", afirmou o Flight Review da empresa. "Apesar de não ser um sucesso total, a maioria significativa dos objetivos da missão foi atendida tanto do ponto de vista programático quanto técnico."

Aquele segundo voo promissor preparou o cenário para a terceira missão, e as cargas selecionadas para este voo refletiram a confiança da SpaceX e de seus clientes. A NASA, o Departamento de Defesa e uma empresa privada, Celestis, embarcariam carga útil de uma vez só.

A SpaceX passou 17 meses preparando um terceiro foguete Falcon 1, atualizando seu motor principal e testando para garantir que tudo ocorreria sem problemas para um lançamento em agosto de 2008. A SpaceX também começou a trabalhar, antecipando os próximos dias. Dunn havia sido oficialmente contratado em 2007, depois de um estágio no ano anterior. Depois que um gerente sênior acima dele se aposentou, Dunn se viu responsável por grande parte do primeiro estágio, com uma posição no console dentro do bunker no Kwaj para lançamentos.

Sentado na sala de controle com Koenigsmann e cerca de dez outros operadores para o terceiro voo, Dunn acompanhou a contagem regressiva e começou a baixar a cabeça, olhando para uma tela de computador. Dados rolados, exibindo a saúde dos motores e a pressão na câmara de combustão. Dunn sentiu tanto excitação como tensão.

Lançamento número 3 do Falcon 1. O vídeo pode ser visto aqui
Lançamento número 3 do Falcon 1. O vídeo completo pode ser visto aqui

Na verdade, aquilo foi quase como uma experiência fora do corpo. Dunn sentiu como se tivesse perdido a noção do tempo durante a ascensão do Falcon 1, mesmo quando o primeiro estágio fez o que Musk mais tarde descreveu como um voo "perfeito para fotos". No entanto, após a primeira fase separar-se do segundo estágio, seu novo motor Merlin queimou um pouco mais do que o previsto, um leve disparo residual e aparentemente insignificante, mas que deu força suficiente para causar a colisão dos dois estágios.

"Quando a anomalia ocorreu, eu estava com a cabeça baixa", lembrou Dunn. "Eu estava olhando para dados. E eu pude ouvir esse suspiro. Eu olhei para cima e, a essa altura, você podia ver que as coisas não estavam certas. Demorou um pouco para internalizar. Foi incrivelmente decepcionante. A equipe ficou devastada ao meu redor". Alguns de seus colegas de trabalho, na verdade, estavam chorando. (As imagens do lançamento podem ser vistas aqui. O momento em que o primeiro estágio colide com o segundo é de tirar o fôlego).

Para Koenigsmann, que nunca falhou muito antes, mas agora estava enfrentando a realidade dos voos espaciais, o terceiro lançamento foi particularmente doloroso.

"Fomos para casa e Elon basicamente disse: 'Temos mais um foguete, vamos lançá-lo o mais rápido possível'", disse Koenigsmann. "O sentimento foi, em geral, que este foguete deveria funcionar ou estaríamos em apuros."

Esta semana [da data de publicação deste artigo], à beira do décimo aniversário do quarto voo do foguete Falcon 1, Musk reconheceu isso. "Se não tivéssemos chegado à órbita nessa tentativa, a SpaceX não existiria", disse ele. "Esse foi um lançamento emocionalmente muito difícil."

Tudo muda durante a espera

Poucos perceberam isso na época, mas de volta aos Estados Unidos, o governo começou a plantar as sementinhas para uma revolução no voo espacial. Mas elas quase certamente não teriam germinado se a SpaceX tivesse falhado.

Durante a presidência de George W. Bush, a NASA mergulhou em voos espaciais comerciais, fornecendo várias centenas de milhões de dólares à SpaceX e outras empresas privadas para desenvolver foguetes e espaçonaves para levar carga à Estação Espacial Internacional. Mas o Congresso, percebendo uma ameaça aos programas governamentais existentes, não estava gostando dos repasses que iam no sentido de privatizar esses tipos de serviços. Os repetidos fracassos do SpaceX reforçaram suas alegações de que apenas veículos do governo, como o ônibus espacial, poderiam fazer voos espaciais.

A política espacial permaneceu longe de ser uma questão significativa durante a eleição presidencial, mas em setembro de 2008, Lori Garver já estava trabalhando em questões pré-transição para a campanha presidencial de Barack Obama. Mais tarde, ela lideraria sua equipe de transição na política espacial e se tornaria vice administradora da NASA. Ela apoiou os esforços comerciais iniciados por Bush e queria que seu chefe os acelerasse. Mas foi difícil defender um foguete como o Falcon 1, que continuava falhando.

"Eu já havia explicado a importância do desenvolvimento de lançamentos espaciais comerciais para os principais conselheiros de ciência e tecnologia de Obama, e estávamos no caminho", disse ela. "Mas se não tivesse sido um sucesso, teria sido muito mais difícil priorizar carga comercial e tripulação".

Os primeiros anos do governo Obama testemunharam uma disputa acirrada entre a Casa Branca, que queria privatizar partes importantes da NASA para reduzir custos, e um Congresso relutante em tomar medidas que custariam empregos espaciais tradicionais nas mais variadas carreiras da NASA.

A SpaceX seguiu seu sucesso inicial com um voo comercial em julho de 2009 da carga RazakSAT. Logo, a empresa passaria para o muito mais poderoso foguete Falcon 9
Primeiro voo comercial da SpaceX ocorreu em julho de 2009 ao levar o satélite RazakSAT

Uma campanha focada no legado das empresas aeroespaciais alimentou as batalhas sobre o financiamento no Congresso. Durante vários anos, esses ataques reduziram o financiamento para carga comercial e os esforços de tripulação em 50%. Mas os ataques não vieram de fora da agência espacial, disse Garver.

"As tentativas internas da NASA para atrapalhar o programa foram as mais difíceis de superar", disse ela. "Começou com alguns e quando vimos centenas de pessoas pareciam surgir com táticas para minar nossos planos."

Com o tempo, essas táticas variaram, mas incluíram esforços para tornar os programas da tripulação e da carga servidos por um único fornecedor, sob um programa de custo adicional que teria comprometido muito mais o orçamento da NASA. Às vezes, dados positivos sobre empresas comerciais eram omitidos ou o potencial do próprio Sistema de Lançamento de foguetes da agência era exagerado. Requisitos foram adicionados aos contratos comerciais. A sabotagem veio de todos os lugares, disse Garver, incluindo partes da própria administração da NASA, diretores de centro, aqueles que cuidavam dos assuntos legislativos e até mesmo alguns comitês consultivos externos.

"Se o Falcon 1 não tivesse alcançado a órbita nesta missão, as forças que tentaram nos empurrar para fora do circuito provavelmente teriam tido mais sucesso em fazê-lo", disse ela.

Voo 4

Nos dias de lançamento no Pacífico, os engenheiros do Kwaj acordaram bem antes do amanhecer, não que Dunn e os demais conseguissem dormir, na verdade. Ele comparou a inquietação daquela noite aos exames finais da faculdade. Para a equipe da SpaceX, o quarto voo ofereceu um teste com 2 respostas: falhar e prourar outro trabalho menos empolgante OU ter sucesso e conquistar o mundo.

Depois de uma refeição rápida no hotel do Exército, um passeio de bicicleta de 45 minutos até o centro de controle, e isso significava enfrentar o forte vento da região. As correntes atravessam as Ilhas Marshall consistentemente de leste a oeste e, devido à orientação dos Kwaj, isso significava que para dar aquele passeio de bike era preciso atravessar uma brisa de quase 40 km/h para chegar até o centro de controle.

Uma equipe durante a noite havia dado os primeiros passos para preparar o foguete para o lançamento, como o abastecimento de hélio no veículo. Mas Dunn, Koenigsmann e os outros estavam à disposição no centro de controle cinco ou seis horas antes do lançamento para supervisionar as operações finais na ilha de Omelek.

Sempre houve problemas técnicos que precisavam de alguém em cima, mas chegamos até a contagem de lançamento sem problemas. Depois que a equipe de Omelek deixou a pequena ilha, desta vez eles não tiveram que retornar para juntas os pedaços de um foguete destruído. Às 11:15, hora local, apenas 15 minutos após o horário original de decolagem, Koenigsmann, o engenheiro-chefe, e Tim Buzza, o diretor de lançamento, liberaram o Falcon 1 para o voo. Uma decisão final veio de Musk, na Califórnia, com o resto da equipe de lançamento.

Musk assiste ao lançamento do quarto voo do Falcon 1, na Califórnia
Musk assiste ao lançamento do quarto voo do Falcon 1, na Califórnia

Então, o Falcon 1 foi lançado pela quarta vez. "Depois disso, você não pode fazer mais nada", disse Koenigsmann. "Você só assiste. Ficamos lá sentados no console, mas isso não afeta o resultado do lançamento."

O que os engenheiros viram foi um foguete se comportar como eles esperavam. O primeiro estágio queimou perfeitamente e não houve problemas com a separação de estágios. Depois que o mottor Kestrel se acendeu, ele também queimou como o previsto. A carga então se separou e entrou em órbita. "Foi apenas a melhor coisa do mundo naquele momento", disse Koenigsmann.

Então eles tiveram que assistir e se perguntar sobre seu brinquedinho por meia hora. Isso porque outra queima havia sido planejada para 45 minutos depois, comumente necessária para posicionar os satélites lançados para que eles assumam sua inserção orbital final. Uma estação de monitoramento na Ilha de Ascensão, no Atlântico, captou o sinal do Falcon e pode constatar como a segunda queima prosseguiu sem problemas também. Após este ponto, a bateria do segundo estágio estava prestes a morrer, mas resistiu apenas o tempo suficiente para que o estágio de controle de solo em Kwajalein captasse seu sinal mais uma vez.

"Foi incrível ver algo que você acabou de lançar uma hora e 30 minutos antes", disse Koenigsmann. "Essa foi uma boa ilustração do que uma órbita ao redor da Terra significa".

O impacto

O primeiro voo bem sucedido do Falcon 1 serviu como um catalisador para a indústria espacial comercial. O desenvolvimento de novos foguetes e naves espaciais financiado com recursos privados, bem como os negócios comerciais no espaço além das telecomunicações, registraram altos e baixos ao longo dos anos, mas nunca havia tido sucesso, pelo menos até aquele dia. O segundo lançamento bem-sucedido da SpaceX do foguete Falcon 1 em 2009, quando colocou um satélite comercial em órbita, selou o acordo e acabou com alguma dúvida, caso ainda houvesse.

"O impacto que seu primeiro lançamento comercial bem-sucedido teve na indústria espacial não pode ser exagerado", disse Anderson, que administra um grupo de investimento, a Space Angels, que acompanha de perto o investimento público e privado em voos espaciais. (Ela investiu na SpaceX várias vezes ao longo dos anos).

Esses dois primeiros lançamentos foram tão significativos porque a SpaceX lançou um pequeno satélite comercial a um preço bem abaixo do que qualquer outra empresa oferecia: US$ 7 milhões. Talvez mais significativamente, a empresa publicou suas capacidades e preços online, com uma transparência nunca antes vista.

"Ele abriu uma cortina em um cantinho escuro", disse Anderson. "Antes disso havia um punhado de empresas servindo aos governos e necessidades de lançamento comercial, e era mais uma situação de cartel."

Essencialmente, se uma empresa quisesse lançar um satélite, uma equipe sênior poderia voar para Paris e se reunir com a Arianespace para uma reunião com executivos lá. Depois de determinar os requisitos, a empresa de satélites voaria para casa e esperaria que a empresa de lançamento colocasse esses requisitos em uma famosa caixa preta e aparecesse com um preço.

"Para lançar um satélite antes da SpaceX, o dinheiro não podia ser um problema", disse Anderson. "Poderia ser US$ 90 milhões, ou US$ 170 milhões, ou o que desejassem cobrar naquele dia. Estas são barreiras enormes ​​para a entrada de novos clientes". 

Em 2014 a SpaceX já colocava seus satélites em órbita com o Falcon 9, equipado com 9 motores
Em 2014 a SpaceX já colocava seus satélites em órbita com o Falcon 9, equipado com 9 motores

A transparência de preços e a introdução do foguete Falcon 9 pela SpaceX em 2010 a um preço de US$ 60 milhões ajudaram a derrubar essas barreiras de entrada. Com o tempo, isso desencadeou uma onda de inovação nos satélites e fez o voo espacial ser uma realidade possível para cada vez mais empreendedores.

Anderson disse que, antes de a SpaceX começar a pilotar o foguete Falcon 1, havia algumas dezenas de empresas financiadas pelo setor privado, globalmente, envolvidas em atividades de voo espacial. Hoje, são 350 e eles levantaram US$ 15 bilhões em capital privado.

Isso também facilitou o caminho para Garver e outros defensores do voo espacial privado convencer a Casa Branca de Obama a patrocinar o financiamento de carga comercial para a estação espacial e, mais tarde, tripulação comercial para astronautas. A NASA também abriu o uso da estação para empreendimentos comerciais, para que as empresas pudessem testar conceitos no espaço para ver se funcionavam e poderiam, um dia, gerar lucro.

Uma das empresas que tirou proveito disso foi a Made in Space, uma empresa de impressão 3D. Seu chefe executivo, Andrew Rush, atribui o desenvolvimento da Estação Espacial Internacional como um laboratório nacional ao lançamento do Falcon 1. O acesso de baixo custo ao espaço ajudou a alimentar uma economia frágil na órbita baixa da Terra, disse ele.

"Ter essa infra-estrutura comercial é realmente um grande diferencial para empresas como a Made in Space", disse Rush. "Não precisávamos inventar foguetes baratos. Podemos confiar em foguetes baratos. Eu diria que, em retrospectiva, esse foi definitivamente um ponto de inflexão. "

"Orbita"

Depois do primeiro lançamento, Dunn e os outros engenheiros do centro de controle andaram loucamente pelas bicicletas em Kwaj para encontrar a equipe que alimentou o foguete naquela manhã em Omelek e depois voltarem à ilha maior. Eventualmente, eles se encontraram em uma praia perto do cais. Todos, lembrou-se Dunn, começaram a cantar "Orbit". Repetidas vezes.

Esse sucesso inicial ajudou a conseguir um contrato multibilionário com a NASA para entregar carga à estação espacial e desencadeou uma década de conquistas na qual a SpaceX passou de um foguete de um único motor para um com nove motores, e depois para um com 27 motores. A empresa também desenvolveu duas naves espaciais, a Dragon 1 e 2, e desembarcou dezenas de primeiros estágios.

A década de dominância da SpaceX começou em setembro de 2008, com o quarto voo do foguete Falcon 1. É mostrado aqui, na Ilha Omelek. Esta galeria destaca outras conquistas desde então
A década de ouro da SpaceX começou em setembro de 2008, com o quarto voo do foguete Falcon 1

Fora da URSS, de 1957 a 1967, e da NASA de 1961 a 1971, é difícil encontrar um país ou uma empresa que tenha tido uma década mais dinâmica no espaço do que essa.

Para os primeiros funcionários, como Koenigsmann e alguns dos engenheiros brilhantes que se juntaram à empresa na época, esse sucesso tão buscado ajudou a criar confiança na ambição de Musk por Marte. A colonização dos humanos permanece um objetivo audacioso, mas não parece mais impossível.

"Devo dizer que minha visão era muito pequena", disse Koenigsmann. "Percebi que deveria aumentar meus objetivos um pouco mais. Então, e Marte? Mas é claro. E isso é algo que Elon faz muito bem. Ele basicamente amplia os horizontes das pessoas e deixa claro por que Marte deveria ser nosso próximo objetivo e por que devemos trabalhar o máximo possível para fazê-lo".

Cerca de dois terços dos cerca de 30 engenheiros que estavam em Kwaj e Omelek no primeiro voo bem-sucedido do Falcon 1 permanecem na SpaceX hoje. Uma experiência como essa, incluindo um ciclo devastador de fracassos que acabou no terceiro voo, passando pelos longos dias e noites em calor tropical, até aquele final, o sucesso máximo marcou indelevelmente muitos deles. Era verdadeiramente uma aventura, lembra Dunn.

Depois que as equipes se encontraram cada qual mais empolgadas na praia do Kwaj, logo foram até um dos dois bares da ilha. Todo o arquipélago agora sabia sobre o SpaceX e o que ele estava tentando fazer. Eles sabiam que a SpaceX tinha tido um tempo difícil antes disso, e muitos militares estavam lá, comemorando juntos. Então, boa parte da ilha juntou-se àquela festa.

Eles beberam até esvaziar o bar naquela noite.