A Deezer anunciou que vai começar a comercializar sua tecnologia de detecção de músicas geradas por inteligência artificial. Até agora, a empresa era a única do streaming musical a identificar claramente faixas criadas por IA e a removê-las das recomendações, numa tentativa direta de proteger artistas e evitar fraudes nos pagamentos de direitos autorais.

Deezer quer barrar músicas de IA e leva solução para gravadoras

A Deezer quer ajudar gravadoras, editoras e sociedades de gestão coletiva a lidar com esse problema que cresce em ritmo acelerado. O envio em massa de músicas criadas por máquinas, muitas vezes com o único objetivo de manipular streams e desviar royalties de artistas reais.

Segundo Alexis Lanternier, CEO da Deezer, o interesse do setor pela ferramenta já estava aumentando. A empresa realizou testes com grandes nomes da indústria, incluindo a Sacem, entidade que representa autores, compositores e editores musicais na França. A partir desses resultados, a Deezer decidiu tornar a tecnologia amplamente disponível.

No Brasil, a iniciativa também é vista como um avanço importante. Rodrigo Vicentini, General Manager da Deezer na América Latina, afirma que a proposta é equilibrar inovação tecnológica com a sustentabilidade do ecossistema musical. O foco, segundo ele, não é apenas identificar conteúdo gerado por IA, mas proteger os direitos de quem cria e manter a criatividade humana como o centro da plataforma.

Os números ajudam a entender o tamanho do desafio. Atualmente, a Deezer recebe mais de 60 mil faixas totalmente geradas por IA todos os dias, o que representa cerca de 39% de todo o conteúdo enviado diariamente. Desde o início de 2025, a ferramenta de detecção já identificou e etiquetou mais de 13,4 milhões de músicas feitas por IA. Em junho do mesmo ano, a plataforma se tornou a primeira do mundo a marcar explicitamente esse tipo de faixa para os usuários.

Como essa tecnologia funciona?

Deezer quer barrar músicas de IA e leva solução para gravadoras

A tecnologia da Deezer consegue identificar músicas criadas por modelos populares como Suno e Udio, além de permitir a adaptação para outros sistemas semelhantes. Um dos diferenciais é a capacidade de detectar conteúdo sintético mesmo sem um conjunto específico de dados para treinamento.

Outro ponto sensível é a fraude. Embora músicas totalmente geradas por IA representem apenas entre 1% e 3% dos streams da plataforma, a Deezer identificou que até 85% desses streams são fraudulentos. Sempre que detecta manipulação, a empresa exclui essas reproduções do cálculo de royalties, evitando prejuízo direto aos artistas.

Hoje, todas as faixas criadas exclusivamente por IA são removidas das recomendações algorítmicas e não entram em playlists editoriais. A Deezer afirma que esse é apenas o primeiro passo e que novas medidas, como mudanças nas políticas de distribuição ou até desmonetização, estão sendo avaliadas com cuidado.

O avanço da IA na música preocupa o setor como um todo. Um estudo da CISAC, em parceria com a PMP Strategy, aponta que quase 25% da receita dos criadores pode estar em risco até 2028, o que representa uma perda potencial de € 4 bilhões. Diante disso, a Deezer também informou que solicitou duas novas patentes relacionadas à sua tecnologia de detecção de IA, focadas em métodos capazes de diferenciar músicas sintéticas de gravações autênticas.