Como funciona a censura e o acesso à internet da China

Sem Google? Sem Facebook? A internet na China pode ser bem pior que isso. Duvida? Pois saiba que você pode ser preso por assinar uma petição Online!

Por | @Evilmaax Tecnologia

Se você frequenta a internet há algum tempo então já sabe que a internet na China não é uma coisa muito agradável. Não pela velocidade de carregamento dos vídeos do YouTube, mas sim porque você não pode acessar o YouTube lá! De que ainda ser o 15º país em um ranking mundial de velocidade de conexão nos dispositivos mobile e 22º na velocidade de conexão fixa (o Brasil está em 76º e 72º lugares, respectivamente), mas ter o governo espionando tudo o que você faz e dizendo o que você pode e o que você não pode acessar?

Comparação da velocidade China x BrasilComparação da velocidade China x Brasil

O controle da internet por lá é tão grande que o sistema de monitoramento do governo chinês, o mais avançado do mundo, aliás, é chamado de o Grande Firewall da China, brincando com a Grande Muralha. 

Apenas para você ter uma ideia, a ONG internacional Jornalistas Sem Fronteiras, que mede a liberdade de imprensa nos países de todo o mundo e os classifica dos mais libertários aos mais opressores, coloca a China na posição 176 de 180. Segundo este rankinga o país só consegue ser mais "livre" do que a Síria, Turcomenistão, Eritreia e Coreia do Norte (Brasil está em 103º).  A ideia aqui não é entrar em detalhes de como o ranking mede se os jornalistas do país são livres ou não, mas a liberdade da internet é um dos critérios básicos da avaliação, por isso, o ranking é bem sugestivo para você ter uma noção de como o povo chinês tem acesso à Rede.

A ideia do post é tentar entender o que acontece por lá e ter noção de como é complicado acessar o Facebook ou mandar um tweet diretamente do país, aliás, pode tuítar na China??

Mas antes de começar a discussão é preciso evitar comentários sectários que tentarão reduzi-la à pobre briga comunismo x capitalismo. Sim, a China tem um regime comunista e uma forte repressão das liberdades individuais por conta disso, assim como a Eritreia e a Síria, ambas capitalistas. Ou seja, isso não faz muita diferença por aqui.

O acesso à informação e censura de um modo geral no país

Esse não é o foco do artigo, mas é importante que ressaltemos como funciona a censura como um todo para entendermos como funciona o controle da internet. 

Por conta de seu regime a China possui um um braço do governo chamado Xinhua News Agency que funciona como um órgão oficial de notícias do governo. Todo e qualquer assunto mais sensível – como a recente relação conflituosa com Coreia do Norte – deve seguir as orientações passadas pelo órgão. Na verdade, a maior parte das notícias “tensas” são feitas diretamente por esta agência de notícias e os demais veículos apenas os reproduzirão. São mais de 30 mil censores trabalhando na Xinhua News Agency para garantir que tudo saíra como o governo espera. 

Por ser um dos maiores países em extensão territorial e ter quase 1.5 bilhão de habitantes (a maior população do planeta) a China ainda tem a televisão como o principal veículo de informação das massas, sobretudo porque cerca de 50% dos seus moradores ainda não tem acesso à internet. E como redes de Tv "não oficiais" não existem por lá, as pessoas, muitas vezes, nem sabem que estão tendo uma visão parcial do acontecimento, tomando a visão oferecida pelas agências oficiais como única verdade.

Protesto - em NY - contra a rede de agências chinesaProtesto - em NY - contra a rede de agências chinesa

Nem mesmo a tv “ao vivo” é tão ao vivo assim já que todas as transmissões têm, no mínimo, algo como 10 segundos de atraso entre a geração da imagem e a transmissão para o público. Esse é o tempo necessário para que algo seja cortado, censurado ou apareça um belo gatinho no vídeo caso preciso.

Mas não são apenas questões políticas que são observadas de perto por lá. Temas como sexo, homossexualismo, drogas, aborto e todos aqueles outros com os quais o seu tio chato e hipócrita faz questão de incomodar nas reuniões de domingo também estão na mira do governo.

A saída para para os estúdios de cinema é não exibir cenas de sexo, por exemplo, já para os jornais é maquiar a notícia ou, simplesmente, não noticiar o acontecimento por medo de uma reprimenda mais pesada. Segundo a mesma ONG que vimos acima, responsável pelo monitoramento da liberdade da imprensa, a China já chegou a responder por mais de 25% das prisões de jornalistas mundiais em um mesmo ano.

Quanto à literatura, mesma coisa: um órgão oficial é responsável por aprovar ou não o que se pretende publicar no país. Estima-se que para cada 100 livros circulando na China, 40% sejam oficiais e aprovados pelo governo, enquanto 60% sejam piratas e de conteúdo subversivo. Para dar conta dessa contravenção existe um sistema bem complexo: São mais de 4 mil “gráficas” funcionando por baixo dos panos localizadas nos vilarejos do país. Cada uma imprime algumas poucas páginas do livro, outras fazem o encadernamento enquanto a distribuição seguirá por canais especializados e atingirá 2600 pontos de venda. Ao todo estas gráficas clandestina imprimem obras de mais de 100 editoras diferentes. 

Enquanto isso, aqueles livros criminosos que são capturados vão sendo queimados em praça pública, assim como na boa e velha (velha mesmo) Antiguidade e Idade Média.

O acesso à rede

Como disse há pouco, a China é o país mais populoso do mundo. Quase 20% das pessoas do planeta estão lá, ou seja, a cada 5 pessoas nascidas, 1 será chinesa. Com essa galera toda dá para ter ideia do tamanho da internet chinesa: desde 2008 elá é o país com mais moradores conectados, mesmo que metade das pessoas ainda não tenham acesso à rede (cerca de 700 milhões). Por ser um país montanhoso e de difícil instalação de infraestrutura, o meio de conexão que mais cresce por lá é o mobile, principalmente por conta dos habitantes das zonas rurais. Estes compreendem uma parcela de quase 180 milhões de habitantes, quase 90% da população total do Brasil.

Hoje, cerca de 60 regulamentações governamentais regem a internet na China interferindo nos serviços de ISP, organizações nacionais e companhias estrangeiras, não somente bloqueando os sites, mas também monitorando o que as pessoas fazem quando online e aplicando punições que vão de multa a prisões.

A internet chegou oficialmente lá em 1994 e a repressão começou, de maneira oficial, em 1998, quando o partido comunista resolveu aumentar a vigilância para conter um possível contragolpe da oposição que poderia ser organizado no novo meio de comunicação. Foi quando lançaram a primeira fase do Golden Shield Project, ou, Projeto Escudo Dourado, embora eu ache o nome "Grande Firewall da China", dado pela crítica,  beeem melhor. Estima-se que, hoje, o GSP tenha mais de 2 milhões de pessoas que fazem algum tipo de verificação de conteúdo e censura.

Protegendo você do Google, YouTube e internet desde 2003Protegendo você do Google, YouTube e internet desde 2003

Para você ter uma ideia de como eles levam a sério o GSP, este codinome “Golden” é dado aos temas mais sensíveis do governo chinês. Existem 12 “Golden Projects” ao todo, entre eles Golden Bridge (informações públicas sobre economia), Golden Customs (comércio exterior), Golden Finance (sobre finanças), etc.

Sério e organizado. O Golden Shield é composto por um sistema de gerenciamento de informações sobre segurança, sistema de informações criminais, sistema de supervisão da informação, sistema de gerenciamento de tráfego de dados, etc. Ou seja: a rédea lá é curtíssima.

Segundo os artigos 4 ~ 6 do documento que rege a internet por lá (correspondente ao nosso Marco Civil da Internet): 

Os indivíduos estão proibidos de usar a Internet para: prejudicar a segurança nacional; Divulgar segredos de estado; Ou ferir os interesses do Estado ou da sociedade. É proibido aos usuários usarem a Internet para criar, replicar, recuperar ou transmitir informações que incitam a resistência à Constituição da República Popular da China, leis ou regulamentos administrativos; Promove a derrubada do governo ou do sistema socialista; Mina a unificação nacional; Distorce a verdade, espalha rumores ou destrói a ordem social; Ou fornece material sexualmente sugestivo ou incentiva jogos de azar, violência ou assassinato. Os usuários estão proibidos de se envolver em atividades que prejudiquem a segurança das redes de informação do computador e da utilização de redes ou da mudança de recursos da rede sem aprovação prévia 

O pessoal do Escudo Dourado mantém uma lista de palavras “indesejadas”. Assim, todos os sites que tiverem essas palavras entram em uma blocklist e passam a ser bloqueados pela governança dentro do território chinês. Segundo um estudo feito em Harvard já são mais de 18 mil páginas bloqueadas por eles. 

Como resultado, além de encarcerar pessoas por censura nos “meios tradicionais” (manifestações, política, etc.) a China também encarcera por causa de meios digitais. Entre 2010 ~ 2012 ela foi o país que mais prendeu usuários da Rede. Os crimes cometidos por eles foram: comunicar-se com grupos estrangeiros, pedir reformas políticas, educacionais e o fim da corrupção e, até, assinar petições online!!

Um caso famoso foi o de Wang Xiaoning e alguns outros ativistas que foram presos e condenados a 10 anos de regime fechado, em 20013, por usar uma conta de e-mail no Yahoo para postar conteúdo anônimo num fórum. Em outro caso a família do professor Liu Shaokun foi notificada de que ele seria mandado para um período de 1 ano de reeducação através do trabalho por “incitar a desordem”. Seu crime foi postar fotos de escolas em péssimas condições. O caso ocorreu em 2008. E os exemplos poderiam se estender por muitos e muitos parágrafos.

Em episódios recentes os donos dos maiores perfis do Twitter do país foram presos por espalhar calúnias e falsos rumores online e uma região específica da China – Xinjiang – até já chegou a ficar 312 dias sem acesso à Internet externa, tendo a possibilidade de navegar apenas em sites locais e governamentais.

Espero que você tenha pego a referência <3Espero que você tenha pego a referência <3

Como funciona o bloqueio de sites específicos

Para garantir que os chineses acessarão apenas o que o governo chinês quer que eles acessem há uma série de métodos aplicados. De maneira geral o Escudo Chinês impede que os endereços Ip’s vão aonde eles não podem ir. Para isso há uma intrincada rede de manipulação de DNS, proxys e firewalls posicionados nos gateways, provedores e backbones.

Os principais meios são:

  • Bloqueio de IP – Todos os sites possuem um endereço IP, é isso que faz com que você consiga acessar o Oficina da Net dentre os milhares de sites do mundo. Assim, é só bloquear o acesso a algum IP específico e pronto. Se o site está em um hospedeiro compartilhado, azar dos outros sites que não tem nada a ver com isso e possuem o mesmo endereço, pois serão bloqueados também;
  • Filtro e redirecionamento de DNS – Com esse método a censura faz com que o DNS não consiga resolver o nome do domínio ou então retorne um IP inválido;
  • Filtro de URL – Método simples em que a URL do site é analisada em busca de palavras-chave proibidas. Se der match você já sabe;
  • Filtro de pacotes – O chinesinho está lá de boa baixando algo, acessando algo quando a conexão é interrompida. Isso pode acontecer quando um número de palavras-chave controversas for detectado entre os pacotes transferidos;
  • Interceptação de dados – Através de certificados dos navegadores é possível que o governo faça uma interceptação de dados e troque o que deveria ser de fato exibido por algo que eles queiram que seja exibido. O nome desse ataque, caso você queira pesquisar mais, é man-in-the-middle;
  • Conexão TCP resetada – Após identificar conexões que foram bloqueadas pelo seu filtro, conexões futuras – em ambos os lados – poderão ficar inacessíveis por até 30 minutos;

De modo geral o governo expede uma lei determinando que: se um usuário tentar acessar determindo site e, após as verificações, der "match" com algum conteúdo proibido, os ISP's (Internet Service Provider) são impedidos de entregar o conteúdo aos usuários que o estão requisitando de dentro do país.

A topologia do sistema é esta abaixo:

Topologia da conexão chinesaTopologia da conexão chinesa

O que pode e o que não pode

A China não impede que nenhuma empresa instale-se ou opere no país, porém, aquelas que o fizerem tem que aceitar a soberania nacional e atuar de acordo com suas leis. Quem não aceita, pode ser banido.

Serviços que estamos acostumados a usar por aqui podem não ser tão habituais aos chineses. A própria Wikipédia, por exemplo, faz parte de uma novela grande. Bloqueada desde sempre por ter temas polêmicos como a libertação do Tibet, era impossível de ser acessada até 2008, quando por conta dos jogos olímpicos de Pequim e a necessidade de passar uma imagem internacional um pouquinho melhor, ela foi liberada. Mas não durou muito: desde 2015 a Wiki voltou a ser inacessível por lá já que o sistema passou a usar o protocolo HTTPS que criptografa as informações e faz com que a censura seja impossibilitada ou dificultada, tudo o que o governo não quer. 

Serviços liberados em que você pode ter um nickname, como o Twitter (bloqueado desde 2009), só se você registrar o seu nome "oficial" primeiro. Assim o governo conseguirá identificar, multar, processar ou prender quem desrespeitar ou ofender seus princípios nacionalistas.

Sites internacionais de notícias como CNN, NBC e Washington Post já foram bloqueados e hoje estão acessíveis. Já o New York Times voltou a ser bloqueado após uma notícia desastrosa para a imagem do governo chinês que foi publicada em dezembro de 2008.

Dentre os mais de 18 mil sites bloqueados, 12 deles estão no top 100 de acessos mundial e, segundo a Xinhua, somente aqueles "supersticiosos, pornográficos, relacionado à violência, jogos de azar e outras informações prejudiciais" estão na lista negra. Será? Confira algum dos sites que os chineses não têm acesso: 

  • Gmail
  • Google
  • Google Maps
  • Facebook
  • YouTube
  • Twitter
  • Instagram
  • Pirate Bay
  • Dropbox
  • SoundCloud
  • Bloomberg
  • Tumblr
  • Periscope
  • Time
  • E muitos outros

Para saber se algum site específico é bloqueado no país, é só acessar este site e fazer uma rápida pesquisa. Por sorte, o Oficina da Net não está na blocklist.

YaaaaaaaaaaaayYaaaaaaaaaaaay

O que os chineses usam

Como você acabou de ver, eles não possuem redes sociais nem mecanismos de busca ou, pelo menos, não aqueles que conhecemos. Praticamente todos os serviços que estamos habituados a usar tem uma variante chinesa altamente policiada.

Como alternativa ao Facebook eles têm o Renren, popular entre os estudantes, mas que hoje caiu no esquecimento por não ter se adaptado aos acessos mobile.

Como alternativa ao Google o famoso Baidu, responsável por cerca de 70% das buscas feitas por lá (o Google tem menos de 2%). Graça aos chineses é o 4º site mais acessado do mundo e vale cerca de 80 bilhões de dólares.

WhatsApp até existe na China, mas às vezes não. Ele vai e vem, bloqueia e desbloqueia. Por isso a alternativa do momento é o WeChat que além de ser um mensageiro tem também tarefas diárias como chamar um táxi, fazer pagamentos ou comprar ingressos de cinema.

Por lá também não tem Twitter, mas tem o Sina Weibo que já registra mais de 100 milhões de usuários diários e está entre os 20 sites mais acessados do mundo, mesmo que a gente nunca tenha ouvido falar.

O jeitinho chinêsO jeitinho chinês

E assim a coisa segue: Youku Tudou para alternativa ao YouTube, QQ mail ao Gmail, Hudong à Wikipédia, etc. Os números de acesso, usuários e valores também impressionam, afinal, se 50% dos usuários fizer somente 1 busca no Baidu por dia já são 350 milhões de buscas.

Está indo para a China? Confira as alternativas

Vai para a China continental e não quer ficar sem postar a famigerada selfie? Então você pode usar algum VPN que custa algo como 5 ~ 10 dólares por mês e garante o acesso ao site desejado.

Resumidamente um VPN funciona assim: Quando você acessa um site pelas redes normais a sua conexão passa por protocolos de segurança que autenticam a conexão proporcionada pelo ISP. Esse servidor "seguro" tem a função de barrar os possíveis invasores, as tentativas de ataques, os sites ou conexões sem certificados válidos, etc. Tudo muito bom e legal quando aplicado a uma internet livre, mas na China tem o efeito contrário. Serve para IMPEDIR que você acesse o que deseja e o que não é permitido por eles. Assim, o que o VPN vai fazer é criar um túnel entre sua conexão e o local onde você quer chegar. Como esse túnel consegue simular um IP fictício, seria como se você estivesse não no seu hotel em Pequim, mas em qualquer lugar do mundo, como Austrália, Hong Kong e Japão, por exemplo.

Outro probleminha é que a internet, mesmo sem VPN, é muito lenta. Não por conta da conexão – que como vimos, é mais veloz que a nossa – mas por causa das trocentas verificações por qual a informação leva para sair do seu pc, ir até o servidor desejado e retornar (ou não) com a sua solicitação. Por isso prepare-se para vários F5’s. Ahh, e no caso de VPN’s a demora é ainda maior, pois além das táticas de censura do governo há o tempo das contra-táticas para burlá-las.

O ponto positivo é que a internet lá é realmente barata, seja acessando em cafés lan-house (existem muitos, pois facilitam um modelo central de vigilância e, por isso, são incentivados pelo governo), dados móveis para o smartphone ou até mesmo planos mensais para quem está indo morar. Em um desses planos, 30 MB de velocidade de conexão custa 60 Yuan por mês, ou, 28 reais.

E por fim, cuide com a segurança das suas informações. Além de ter o governo na sua cola, os maiores hackers do mundo estão na China, prontos para roubar suas infos. Internet em conexões públicas como praças nem pensar.

Agora, se você vai conhecer o sul do país, onde há grande circulação estrangeira, poderá gozar de liberdade de conexão o/

Um típico usuário chinês de internetUm típico usuário chinês de internet

Nos hotéis de mais de três estrelas da província de Guangdong, jornais e canais de TV estrangeiros, geralmente, não apresentam restrições. Outros locais safe são Hong Kong e Macau também que não possuem restrições devido ao fato de serem territórios autônomos.

Ufa, o post foi longo, mas acho que deu para dar uma ideia de como funciona a coisa por aqui. Agora é só compartilhar este post com seus amigos para fazer valer o perigo dessa postagem (para quem não sabe, sou chinês e estou, neste momento, em Chengdu). HELP 

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Mais sobre: censura marcocivil china
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