Um giga de memória RAM custava dois dólares e oitenta em 2025. Hoje custa doze. Mais de quatro vezes mais caro em pouco mais de um ano, e nenhum fabricante de celular no mundo consegue engolir essa conta sozinho. O Google foi o primeiro a admitir isso em público. E você sabe pra onde essa memória toda está indo né?

Assista em vídeo:

Google admite falta de memória

O Google anunciou ontem o Pixel 11, a notícia que mais chamou atenção não foi câmera nem processador. Foi o preço. O modelo básico da linha chegou custando cerca de cem dólares a mais que o Pixel 10, e a empresa nem tentou disfarçar o motivo.

O vice-presidente do Google, foi direto: "há um aumento sem precedentes nos preços de memória que o mundo está vivenciando". Segundo ele, a empresa segurou o repasse pelo máximo de tempo que conseguiu.

Traduzindo: o Google, que é o Google, ficou sem margem para absorver o custo da RAM. E se ele ficou, outras fabricantes também.

A raíz do problema

Agora a parte que quase ninguém explica direito, e que é simples de entender.

As mesmas fábricas que produzem os chips DRAM, que é a memória RAM, e os chips NAND, que é o armazenamento do seu celular, também produzem a memória de alto desempenho, a tal HBM, que alimenta as GPUs usadas para treinar e rodar inteligência artificial nos data centers. E para quem fabrica esses chips, vender para datacenter de IA dá muito mais lucro do que vender para fabricante de celular.

Comparação do custo de memórias; Foto: TrendForce
Comparação do custo de memórias; Foto: TrendForce

Os números da TrendForce mostram o tamanho disso. Os preços de contrato da DRAM comum subiram entre 90% e 95% no primeiro trimestre de 2026 na comparação com o trimestre anterior. E olha que a estimativa inicial falava em 55% a 60%, ou seja, foi revisada para cima. No segundo trimestre a alta continuou: entre 58% e 63% na DRAM e entre 70% e 75% na NAND Flash, também na comparação trimestral. A explicação da própria consultoria é essa: a memória para servidor recebe fornecimento prioritário, e isso empurra o preço para cima em PC, celular e eletrônico de consumo em geral.

Então, de novo, não é falta de matéria-prima. É prioridade de fornecimento. Não há um movimento para aumento de produção de memórias, as fabricantes não criaram mais fábricas, elas estão apenas direcionando a demanda de criação para os datacenters, deixando outros dispositivos como PCs e smartphones de lado com produção menor.

Como os celulares foram afetados

Olhar o caso mais recente do Pixel é só a ponta do iceberg. O caso mais claro depois do Pixel é o da Samsung. O Galaxy S26, lançado em fevereiro de 2026, chegou com aumento parcial em relação ao S25 no Brasil. O modelo básico manteve o mesmo valor do antecessor, R$ 7.499 só que agora com 256GB e não mais 128GB, mas o S26 Plus foi para R$ 9.199, uma alta de 8,2% em relação aos R$ 8.499 do S25 Plus. Para garantir fornecimento no meio da escassez, a Samsung passou a usar chips LPDDR5X tanto da própria divisão de semicondutores quanto da Micron, numa proporção quase igual entre os dois, uma estratégia de fornecimento duplo que é rara fora de momento de crise.

E teve uma jogada curiosa aí. O Galaxy S26 Ultra passou a oferecer 16 GB de RAM pela primeira vez na linha, mas só na versão de 1 TB de armazenamento. Esse é o padrão que se repete nesse tipo de cenário: em vez de encarecer tudo de forma igual, a marca reserva a melhor configuração de memória para o topo de linha, que tem margem para absorver, e segura ou corta RAM nos modelos de entrada.

A Xiaomi já falou a mesma coisa. Executivos da marca confirmaram publicamente que o consumidor deve se preparar para preço mais alto nos próximos lançamentos, e atribuíram isso direto à crise de memória.

E a IDC projeta que o preço médio global de venda de smartphone suba de 457 dólares em 2025 para 465 dólares em 2026, com uma queda de 12,9% nas vendas totais da categoria, a maior queda já registrada, para 1,12 bilhão de unidades. Ou seja: celular mais caro vendendo menos.

E o Brasil?

No Brasil, a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica demonstrou que os fabricantes já repassaram aumento de pelo menos 20% em computadores e smartphones vendidos no varejo brasileiro até o fim de 2025, somando o efeito da alta da memória. E olha esse dado: o custo dos componentes de memória, que antes era uma fatia menor do preço final, hoje responde por algo entre 15% e 20% do custo total de um computador ou celular. Praticamente o dobro do que era antes da crise.

Para a associação, isso não é solavanco passageiro. É mudança estrutural, e deve seguir pressionando preço ao longo de 2026 e 2027, enquanto a expansão dos data centers de IA continuar acelerada.

O que muda para quem vai comprar?

Agora a parte prática, que é o que interessa para você.Dá para esperar dois movimentos em paralelo nos próximos lançamentos, seja qual for a marca.

  • O primeiro é o óbvio, que é o preço mais alto mesmo, como já rolou com Pixel 11, com Galaxy S26 e, pela própria admissão da Xiaomi, com a próxima geração da marca chinesa.
  • O segundo é mais sutil, e é o que eu quero que você fique de olho a partir de agora: a redução de memória RAM nas versões de entrada para evitar aumento de preço. No Brasil a gente tá mais que acostumado a ver embalagens diminuindo de peso para manter preço, é o reflexo que deve acontecer nos smartphones também.

O próprio Pixel 11 Pro fez isso, cortou de 16 GB para 12 GB de RAM na versão básica e compensou com o dobro de espaço de armazenamento. No papel parece upgrade. Na prática, você recebeu menos daquilo que ficou caro e mais daquilo que ficou barato de entregar.

Confesso que acho que os próximos anos vão trazer uma mudança real no mercado de eletrônicos: o usado vai ganhar espaço, e não pouco. Em vez de comprar um celular novo mais baratinho, pode fazer mais sentido caçar um topo de linha usado de um ou dois anos atrás, mesmo dinheiro, experiência bem melhor.

E a mesma lógica deve valer pra PC. No lugar de montar um conjunto novo, a procura por computadores e peças usadas também deve crescer.