A polêmica da fosfoetanolamina

Recentemente uma nova droga vem chamando a atenção do Brasil e do mundo. Ela tem um nome difícil de ser pronunciado: fosfoetanolamina, e uma missão mais complicada ainda: acabar com o câncer!

Por | @Evilmaax Ciência

Sim, curar o câncer. Você leu certo. Impossível? Bom, pelo menos é isso que a criação brasileira, que saiu de dentro dos laboratórios da USP de São Carlos, um dos campi da melhor universidade do Brasil e única representante nacional na lista de 100 melhores instituições de ensino superior do mundo promete fazer.

Acreditada por muitos, desacreditada por outros, a questão já saiu da academia e foi parar nos tribunais. De um lado da disputa estão os usuários dizendo que ela funciona e que tiveram melhoras concretas em seu estado de saúde (procure relatos no YouTube. Há dezenas), do outro, órgãos de medicina dizendo que a droga não tem efeitos comprovados. No meio disso tudo ainda tem o sistema judiciário tentando encontrar uma solução - e em alguns meses já foram várias delas. Em uma das decisões mais polêmicas temos a conclusão de José Renato Nalini, presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo (em números o maior do mundo), que explicou sua decisão alegando que

(...) não há nenhuma prova de que, em humanos, a substância reclamada, que não é um remédio, produza algum efeito no combate a doenças. Portanto, presentes os requisitos legais, o deferimento da suspensão é medida de prudência.Caso o nome do magistrado não seja totalmente estranho para você, provavelmente você já deve ter assistido um polêmico vídeo onde um funcionário público defende o auxílio moradia de mais de 4 mil reais para juízes (classe que já tem como piso salarial a partir de R$ 26.000). Nas cenas chocantes e de violência gratuita contra os trabalhadores "normais" ele explica porque é necessário o auxílio e porque juízes já não conseguem mais ir toda semana a Miami comprar um terno "diferente" uma camisa "razoável" e um sapato "elegante". CUIDADO, as cenas são chocantes!

Bom, voltando ao assunto inicial, o que o juiz disse em sua justificativa de decisão é verdade: a droga ainda não é considerada um remédio, pois lhe faltam testes conclusivos em humanos, e até então era usada apenas como tratamento suplementar àqueles convencionais à doença – quimioterapia, radioterapia, cirurgias, etc. Claro que os usuários sentiram-se prejudicados, afinal, se você está doente, tudo o que quer é mais uma chance de se agarrar a uma cura, certo? Mesmo que ela seja uma bala de açúcar.

Sentindo-se lesados, estes usuários resolveram recorrer na justiça para terem concedido o direito de continuar o tratamento alternativo e o processo seguiu até o STF – Supremo Tribunal Federal – incendiando o debate e expondo-o ao grande público através da mídia. Pois bem, a decisão do STF foi a de que os pacientes cobaias podem sim continuar com o tratamento, mesmo que ele não seja conclusivo e tudo o mais.

Ok, já vimos (em partes) como está a questão atual da substância, mas como começou essa história de fosfoetanolamina? Para responder isso vamos ter de voltar no tempo, até o início dos anos 90, época em que um professor, hoje já aposentado, da Universidade de São Paulo, Gilberto Chierice começou a pesquisar os efeitos da injeção dela em sistemas cancerígenos. De lá para cá a substância começou a ser sintetizada – ela já é produzida naturalmente por nosso corpo nos rins e alguns músculos, como o bíceps, por exemplo – e distribuída gratuitamente – o custo por cápsula é de menos de 10 centavos – a pacientes que se sujeitassem ao tratamento incerto.

A polêmica da fosfoetanolamina
Chiarice, em Porto Alegre

E assim o mito, crença, resultado, fé, diagnósticos positivos, etc. (eu é que não sei) da fosfoetanolamina foi se popularizando através daqueles que consideram ter tido uma pausa na doença, um retrocesso nos tumores, a diminuição nas dores ou até mesmo uma cura sem intervenção cirúrgica. Bom, e se tudo estava correndo tão bem, com universidade pesquisando de um lado, usuários esperançosos de outro, quando foi que a situação tomou-se um problema tão grande?

Respondo: em juho de 2014, quando a universidade que a produzia assinou um termo comprometendo-se a não distribuir mais aqueles compostos não registrados na Anvisa e sem comprovação científica de melhoras, ou seja, a fosfoetanolamina. A portaria é bem curtinha (3 parágrafos) e pode ser conferida aqui. A notícia cortou as esperanças de quem via o composto como a última solução para o seu problema, pois sim, EM TEORIA, a fosfoetanolamina ajudaria o corpo a combater o câncer.

Segundo os seus pesquisadores ela age diretamente nas células cancerígenas, auxiliando as mitocôndrias – debilitadas pelo câncer – a se fortalecerem e combaterem a doença. Por isso, ao tomar doses de fosfoetanolamina, repito: EM TESE, o corpo do portador e seu sistema imunológico combateriam as células “defeituosas” através da apoptose, também conhecida como “morte celular”, processo em que nosso corpo se livra daquilo que nos faz mal naturalmente e com frequência diária e que só não faz com o câncer pois, em alguns casos, esse é muito agressivo e precisa de uma “forcinha extra”. E se você relacionou a droga a essa tal forcinha, parabéns, chegamos no cerne do processo. Em camundongos a resposta ao tratamento foi muito positiva, e, segundo Chierice, há mais de 25 anos é utilizada em humanos sem apresentar contra-indicações. Testes toxicológicos dizem que ele é inerte no nosso corpo..

Mas e por que testes mais conclusivos não são feitos, o remédio não é permitido e ele não é lançado? você deve estar se perguntando agora. Pois é, segundo consta, o tal professor, hoje aposentado, tentou obter os testes com diversos laboratórios do país, mas todos eles disseram que só comprovariam a eficácia da substância se ele passasse a patente da mesma para os próprios. Se o professor Gilberto fizesse isso significa dizer que o laboratório seria o dono do futuro remédio e poderia, inclusive, colocar o preço que quisesse. Agora responda rápido: Em quanto você avalia, monetariamente falando, a cura do câncer?? 1 bilhão? 100 bilhões? Talvez até mais, afinal, são cerca de 8 milhões de óbitos por ano no mundo segundo o Inca – Instituto Nacional do Câncer. Parece que os interesses vão além da cura das pessoas.

Bom, enquanto essas pendências não se resolvem, entre liminares expedidas e liminares caçadas, vetos sumários – inclusive a pedido do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin – revertidos posteriormente pelos advogados das famílias, após centenas de pessoas com câncer terem ido à justiça pleitear a continuidade de seu tratamento, seja ele eficaz ou placebo, o STF determinou que a fosfoetanolamina deve continuar sendo produzida e distribuída àqueles que haviam conseguido o direito de usá-la. Aliás, a USP São Carlos já disse ser insuficiente em suprir a demanda e pleiteou na justiça não ter mais de fazer isso e ver-se livre da obrigação. Nada feito. Segundo o STF os laboratórios da universidade estão obrigados a continuar produzindo e distribuindo gratuitamente o composto.

E essa proibição e tentativas em manter a fosfoetanolamina longe dos debilitados tem o apoio importantíssimo de representantes de peso da comunidade científica. A Academia Sul-Riograndense de Medicina, por exemplo, já se manifestou contra seu uso, pois nada de benéfico pôde ser comprovado após seu uso, segundo eles. E a Academia vai mais além: ela questiona em carta pública a “forma arbitrária” do governo em destinar 10 milhões de reais a uma pesquisa, que se sabe ser inútil na visão deles, com tal substância. Até mesmo a famosa revista Nature, uma das mais importantes do mundo médico e científico, entrou na briga. Sem dizer se o composto funciona ou não, eles disseram que condenam a distribuição da substância sem testes concluisvos em humanos primeiro.

Testes esses que, segundo Renato Meneguelo, um dos principais estudiosos da substância – Mestre no assunto pela USP – e que defende seu uso, já devia ter começado há bastante tempo e só não é feita por jogo de interesses e lobby da indústria farmacêutica. Coloque seu nome no YouTube e veja relatos onde ele explica e argumenta – de maneira obtusa, às vezes – o porquê da droga ser liberada imediatamente.

A polêmica da fosfoetanolamina

Polêmicas à parte, há menos de 1 semana (do dia em que escrevo esse texto), em 19 de novembro de 2015, uma cerimônia simbólica na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, marcou o momento em que o estado, através do Lafergs – Laboratório Farmacêutico do Rio Grande do Sul – vai começar a produzir as cápsulas, sendo o primeiro laboratório do Brasil – fora a Universidade de São Paulo – a ter tal incumbência. Segundo o criador da substância sintética, este é um grande passo para que sejam liberados os testes em humanos e, consequentemente, a droga vire um remédio “de verdade”. Confira uma entrevista completa com ele sobre o tema, aqui.

Gilberto Chierice vai mais longe e diz que a pesquisa esbarra no muro levantado pela indústria dos remédios. Um muro no valor de mais de 1 TRILHÃO de dólares. Sim, esse é o valor estimado que a indústria do câncer deixa espalhado por laboratórios, hospitais, clínicas de oncologia, médicos, etc.Dúvidas que isso pesa na hora das decisões? Aliás, você já se perguntou por que os médicos receitam o remédio X para tal doença sendo que o remédio Y tem a MESMA fórmula e é, às vezes, até mais barato? Dica: din_ _ _ _ r_. E aqui vai mais uma pergunta complicada e pra fazer pensar: Será que a fosfoetanolamina enfrentaria tamanha resistência da mídia, da classe médica e do governo se fosse criado, bancado e patrocinado por um grupo gigantesco da indústria dos fármacos?

Bom, o pesquisador diz ainda que, inclusive, já recebeu convites de laboratórios suíços, norte-americanos, coreanos, franceses e alemães para levar suas pesquisas para fora do país e agilizar o processo, mas que ele não irá fazer isso. Ele quer dar este passo aqui no brasil, afinal “(...) não é questão de vaidade. Daqui pode ir para o mundo. Por que tem de vir do mundo para cá? Não é uma pergunta que você deveria fazer?”.

Mas se você é um defensor da fosfoetanolamina, não se anime muito com a produção fora dos laboratórios da USP. Como os críticos da substância fazem questão em lembrar, desde o início dos rumores de que o RS poderia ter tal incumbência: o Rio Grande do Sul é o estado com mais processos na justiça para fornecimento de medicação e o mais quebrado da União em termos financeiros, tendo parcelado os salários de servidores públicos por não ter capacidade de arcar com os custos do funcionalismo nos últimos meses. Como um estado nessas condições, sem recursos para investimentos e pesquisa poderia manter uma produção séria e capaz de alimentar um mercado exclusivo que demanda alta tecnologia?

E para finalizar, voltando ao questionamento inicial do post, não podemos nos afastar da ideia de que o câncer não é apenas 1 doença específica. A OMS – Organização Mundial da Saúde – cataloga mais de 100 tipos diferentes, cada qual com sua particularidade, atingindo um órgão específico, uma célula, parte do seu corpo, etc. Assim sendo, existir 1 droga padrão para tratar de toda essa infinidade de doenças pode soar como loucura. Quem discorda é o próprio Gilberto (confira no vídeo acima) Da minha parte, apenas espero que uma pesquisa séria possa ter início e que os testes nos digam se vamos ter uma saída ou não para o mal do século.

De acordo com o Ministério da Saúde, hoje existem mais e 5 mil pacientes na lista de espera da fosfoetanolamina e apenas 1200 os recebendo com regularidade.

E pra não dizer que não falei das fontes, lá vão elas: Aqui, aqui, mais uma, ainda não acabou, só mais um pouquinho, fonte ak-47 pronta pro combatetá acabando, eu juro, prometo, a última, brinks, capazsério.

Mais sobre: ciência
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