O fim da chamada "taxa das blusinhas" já começou a produzir efeitos no comércio eletrônico internacional. Apenas um mês após o governo federal voltar a zerar o imposto de importação para compras de até US$ 50 feitas por meio do programa Remessa Conforme, o Brasil registrou um recorde histórico de encomendas internacionais.

Dados da Receita Federal mostram que mais de 28 milhões de mercadorias chegaram ao país em junho de 2026, o maior volume desde que esse monitoramento passou a ser realizado, em 2023. Além da quantidade, o valor movimentado também impressiona: foram US$ 574 milhões (cerca de R$ 3 bilhões) em remessas, crescimento de 107% em relação ao mesmo mês de 2025.

Isso mostra que os brasileiros realmente pararam de usar plataformas internacionais como Shein, AliExpress, Shopee e Temu por causa do aumento de impostos. Com a isenção para produtor de até US$ 50, parece que importar da China voltou a ser uma opção viável, principalmente para quem quer economizar.

Para efeito de comparação, em junho de 2025, pouco mais de 13 milhões de encomendas entraram no país. Agora, esse volume saltou para 28 milhões, mais que o dobro em apenas doze meses. O resultado surpreende até porque supera o movimento registrado antes da criação da taxa de importação de 20% para compras de até US$ 50, implementada em 2024.

O que mudou com o fim da taxa?

Em maio, o governo federal revogou o imposto de importação de 20% para compras internacionais de até US$ 50 realizadas por empresas participantes do Remessa Conforme. Isso significa que produtos vendidos por marketplaces como Shein, AliExpress, Shopee e Temu voltaram a chegar ao Brasil sem essa cobrança federal.

Exemplo de compra abaixo de US$ 50 não cobrando mais o imposto de importação no AliExpress
Exemplo de compra abaixo de US$ 50 não cobrando mais o imposto de importação no AliExpress

Vale lembrar que isso não elimina todos os custos da importação. Dependendo da compra, ainda podem existir cobrança de ICMS, frete e outras taxas aplicadas durante o processo. Mesmo assim, a redução do preço final foi suficiente para estimular novamente as compras.

O aumento das importações pode ajudar os Correios?

Quando o governo anunciou o fim da taxa, uma das dúvidas era justamente se o aumento das compras internacionais poderia beneficiar os Correios, que atravessam uma das maiores crises financeiras de sua história.

Na época, aqui no Oficina da Net, mostramos que havia essa possibilidade, mas também destacamos que ela não resolveria, sozinha, o problema da estatal. Agora, os primeiros números começam a confirmar parte dessa expectativa.

Com mais encomendas entrando no país, os Correios voltam a movimentar um volume maior de pacotes nas etapas de recebimento, triagem e distribuição nacional. Isso naturalmente amplia o potencial de geração de receita da empresa.

Entretanto, esse crescimento possui limites. Mais encomendas não significam automaticamente mais lucro. O custo operacional continua elevado e a estatal ainda enfrenta concorrência intensa de transportadoras privadas e operadores logísticos utilizados por grandes marketplaces.

A taxa das blusinhas, criada durante o governo Lula, agravou ainda mais a crise dos Correios. Imagem: Reprodução
A taxa das blusinhas, criada durante o governo Lula, agravou ainda mais a crise dos Correios. Imagem: Reprodução

Em maio, os Correios divulgaram o balanço financeiro de 2025 com um dado preocupante: prejuízo líquido de R$ 8,5 bilhões, o maior desde o Plano Real. Na ocasião, mostramos que o rombo foi provocado por diversos fatores, entre eles reconhecimento de bilhões em passivos judiciais, aumento dos custos operacionais, queda na receita, maior concorrência no setor de logística e a necessidade de reorganização financeira.

Naquele momento, a avaliação era que o fim da taxa das blusinhas poderia aumentar o fluxo de encomendas internacionais e gerar uma melhora na receita da empresa. Os números divulgados agora pela Receita Federal mostram que esse aumento realmente aconteceu.

Mas isso é suficiente para recuperar os Correios?

Siutação dos Correios está longe de ser resolvida, mesmo com o fim da taxa das blusinhas. Imagem: Reprodução
Siutação dos Correios está longe de ser resolvida, mesmo com o fim da taxa das blusinhas. Imagem: Reprodução

Ainda não. Embora o crescimento das importações represente uma notícia positiva para a estatal, especialistas do setor costumam destacar que o principal desafio dos Correios não está apenas no volume de encomendas.

O problema envolve uma estrutura operacional cara, despesas elevadas, passivos judiciais acumulados e necessidade de modernização da empresa. Em outras palavras, mais pacotes ajudam a aumentar o faturamento, mas dificilmente compensam, por si só, um prejuízo bilionário.

Além disso, a estatal segue executando um plano de reestruturação que prevê redução de custos, fechamento de unidades, programas de desligamento voluntário e medidas para aumentar a eficiência operacional. Na semana passada, porém, a estatal anunciou uma pausa nesse plano depois que os trabalhadores entraram em greve.

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