De empregado a empregador: vale a pena?

Ricardo ficava vendo o seu patrão não ter horário para chegar. Ana Rita pensava na vida boa que levava a dona da loja em que trabalhava. Oswaldo via seu patrão abrindo mais uma empresa. Esther queria deixar de ser funcionária pública e abrir uma empresa de eventos

Por | @oficinadanet Empreendedorismo
Ricardo ficava vendo o seu patrão não ter horário para chegar. Ana Rita pensava na vida boa que levava a dona da loja em que trabalhava. Oswaldo via seu patrão abrindo mais uma empresa. Esther queria deixar de ser funcionária pública e abrir uma empresa de eventos... Os quatro confessaram que esses desejos aumentavam justamente quando estavam em férias. Os vinte ou trinta dias longe da empresa ou do serviço público lhes aguçava o desejo de liberdade que, por certo, a vida de patrão, de empregador, lhes proporcionaria. Os quatro criaram coragem. Largaram seus empregos. Tornaram-se, enfim, donos de seu nariz, como diziam.

Ricardo abriu uma lanchonete num pequeno salão que tinha herdado de seu pai. Pegou seu fundo de garantia e ajeitou o salão, comprou o freezer, balcão, forno, mesas, cadeiras e que tais. Queria fazer tudo muito certo, pois criticava seu patrão por sonegar algumas taxas municipais. Para abrir a empresa procurou um escritório de contabilidade e ficou absolutamente estarrecido com as exigências da burocracia e quase teve um enfarte quando chegaram as contas dos impostos, taxas e licenças de funcionamento de sua micro lanchonete.

Ana Rita resolveu vender de porta em porta. Tirou o dinheiro da poupança e comprou o primeiro lote de roupas infantis e partiu para a luta. Saía cedo de casa e bairro por bairro, quadra por quadra, casa por casa, oferecia seu pequeno estoque a donas de casa, mães e avós de prendas domésticas.

Oswaldo abriu uma oficina mecânica. Usou as parcas economias de sua mulher Lena e comprou um kit de ferramentas usado e um macaco hidráulico de um velho tio, com quem aprendera, na adolescência os rudimentos da mecânica de automóveis. Para não pagar impostos, começou numa garagem camuflada nos fundos da casa de seu cunhado André.

Esther abriu a sua tão sonhada empresa de eventos. Não precisava quase nada. Só um folheto de propaganda mostrando sua experiência em coordenar os eventos de sua repartição e um telefone, bastariam.

Dois anos se passaram...

Acusando-o de exigir horas extras em demasia, o único funcionário que tinha foi à justiça do trabalho e conseguiu uma indenização que acabou com o pouco que Ricardo havia ganho. O fiscal sanitário exigia uma nova pintura e azulejos até o teto em sua lanchonete. A receita mal dava para pagar a conta de luz, sempre alta, graças ao forno elétrico, à chapa, à torradeira, ao freezer, etc. Atolado em dívidas com fornecedores e o fisco, Ricardo queria vender sua lanchonete. Era quase impossível, pois as dívidas eram maiores que o valor que ofereciam à sua empresa.

Esther fez cinco eventos nesses dois anos. No primeiro teve um lucro muito bom. Só com ele comprou um novo carro e trocou seu velho fogão. No segundo evento, teve um pequeno problema com um fornecedor. Era um músico que simplesmente não apareceu no dia combinado. O terceiro evento novamente foi um grande sucesso. Graças a ele, Esther foi indicada para os outros dois. De um deles levou calote. O cliente alegou que estava tudo muito mal feito e se negou a pagar. Sem contrato assinado e sem empresa legalmente constituída, a justiça nada pode fazer, disse-lhe um advogado. Esther honrou seus compromissos com os fornecedores e ficou seis meses com problemas de depressão.

Oswaldo estava esgotado. Trabalhava sete dias por semana, de domingo a domingo. Os clientes queriam seus carros prontos e pouco se importavam com o descanso semanal de Oswaldo. Sua mulher reclamava. Os filhos diziam-se órfãos de pai vivo. Certo dia, após sentir uma dormência em seu braço esquerdo, teve uma ordem médica para parar por quinze dias. Como não tinha previdência, nem auxílio doença de alguma fonte, nem empregados que pudessem continuar o seu trabalho, teve que fechar a oficina. Indenizou seu cunhado André pelo estado em que havia deixado o local e ficou sem dinheiro.

Ana Rita deu-se muito bem. Ganhava bem e sua clientela aumentava. O único problema que a atormentava era a sua clandestinidade fiscal. Vivia com medo que alguma cliente invejosa a denunciasse.

O que aconteceu de errado com Ricardo, Oswaldo, Ana Rita e Esther?
Nada de errado. O erro está no simples fato de que os quatros não tinham a real noção do que é ser empresário, empreendedor de si próprio. Eles não se aperceberam, sequer, que seus sonhos foram acalentados em vinte ou trinta dias de férias pagas por alguém que enfrentou e enfrenta os mesmos problemas que eles enfrentaram ao optar pelo vôo solo. Eles criticavam o convênio saúde que a empresa em que trabalhavam lhes oferecia e não se atentaram para a realidade de que, como empresários, eles próprios teriam que arcar com seus convênios de maneira integral. Eles simplesmente não imaginavam a enorme carga tributária, os entraves burocráticos, as ações trabalhistas, os achaques de corruptos fiscais e tudo mais que uma anônima e insensível máquina governamental impinge aos empresários de qualquer tamanho. E eles jamais pensaram nos que não pagam, não cumprem seus contratos escritos ou verbais e os que não temem a justiça e a desafiam como modo de viver.

Assim, antes de deixar o seu emprego, seguro ou não tão seguro, mas que permite que você vá para casa; tenha finais de semana com a família e freqüente os aperitivos com seus amigos aos sábados pela manhã no bar de seu bairro; tire férias e até fale mal do seu patrão; pense se você tem a necessária garra e a gana de enfrentar o desconhecido; de cair inúmeras vezes e começar de novo a caminhada. Pense se você tem estômago para enfrentar empregados desleais que fazem os leais e honestos desaparecerem à sua vista. Pense se você tem a coragem de pensar grande e ver no horizonte a luz de seu sucesso, mas que para chegar lá terá que atravessar caminhos nem sempre agradáveis. Pense se você tem a fibra de um empreendedor!

Mais sobre: empreendedorismo, empregado, empregador
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