A Copa do Mundo de 2026 ainda nem começou, mas o ambiente digital que vai acompanhar o torneio já entrou no radar de especialistas em cibersegurança. A próxima edição será realizada entre os dias 11 de junho e 19 de julho de 2026, nos Estados Unidos, México e Canadá, e será a maior da história, com 48 seleções na disputa.

Mesmo sem ser um dos países-sede, o Brasil não está fora da zona de risco. Pelo contrário: empresas brasileiras ligadas a transmissão, internet, telecomunicações, meios de pagamento, apostas, varejo, mídia, tecnologia e serviços digitais podem ser impactadas pelo aumento de tráfego, pela alta exposição do evento e pela ação de grupos criminosos que costumam explorar grandes acontecimentos globais.

Segundo alerta da NETSCOUT, companhia especializada em observabilidade e proteção contra ataques DDoS, eventos desse porte funcionam como uma vitrine para toda a infraestrutura digital que sustenta o consumo da competição. A Copa mobiliza milhões de pessoas acessando transmissões ao vivo, aplicativos esportivos, sites de notícias, redes sociais, plataformas de venda, sistemas bancários e serviços de pagamento praticamente ao mesmo tempo.

Esse pico de atenção cria o cenário ideal para ataques de negação de serviço, conhecidos como DDoS. Na prática, esse tipo de ataque tenta sobrecarregar servidores, sites ou aplicativos com tráfego artificial até que eles fiquem lentos, instáveis ou simplesmente saiam do ar. Em um dia comum, uma interrupção já pode causar prejuízo. Durante um jogo decisivo, o impacto pode ser muito maior.

Uma falha em uma transmissão, a queda de uma plataforma de apostas, a instabilidade de um gateway de pagamento ou a indisponibilidade de um site de notícias podem gerar perdas financeiras, dano de reputação e frustração para milhões de usuários. Por isso, o risco não se limita aos países que recebem os jogos. Ele se espalha por toda a cadeia digital conectada ao torneio.

Grandes eventos como a Copa do Mundo costumam ser alvos de ataques hackers
Grandes eventos como a Copa do Mundo costumam ser alvos de ataques hackers

De acordo com a NETSCOUT, em períodos de grandes eventos, o volume de ataques pode atingir níveis até dez vezes maiores do que a média. A empresa também observa uma mudança no comportamento dos criminosos: em vez de depender apenas de ataques volumosos e pontuais, muitos grupos têm usado estratégias mais persistentes, com múltiplos vetores e maior capacidade de consumir recursos ao longo do tempo.

Isso significa que a ameaça não está apenas no tamanho do ataque, mas também na forma como ele é conduzido. Um ataque pode combinar diferentes técnicas, mudar de padrão durante a execução e tentar explorar pontos frágeis em camadas distintas da infraestrutura, como DNS, CDN, servidores, APIs, aplicações e provedores terceirizados.

Para Geraldo Guazzelli, diretor-geral da NETSCOUT no Brasil, o Mundial funciona como uma vitrine global não apenas para os países-sede, mas para toda a infraestrutura digital que sustenta o evento. Na avaliação dele, o Brasil está inserido nesse ecossistema e pode sofrer impactos indiretos em setores altamente conectados, mesmo sem receber partidas da competição.

Outro fator de preocupação é o crescimento do hacktivismo. Além de criminosos motivados por dinheiro, eventos globais também atraem grupos com interesses políticos, ideológicos ou geopolíticos. Nesse caso, o objetivo nem sempre é obter ganho financeiro. Muitas vezes, a intenção é derrubar serviços, causar constrangimento público, gerar repercussão ou atingir empresas associadas a determinado país, governo, posicionamento ou evento.

O hacktivismo é uma das preocupações para eventos desse porte
O hacktivismo é uma das preocupações para eventos desse porte

A NETSCOUT cita o grupo NoName057(16) como exemplo desse tipo de ameaça. O grupo ganhou notoriedade por campanhas de DDoS contra governos e organizações em diferentes países, especialmente em contextos de tensão política. Geralmente, esse tipo de ataque é muito agressivo por que eles usam automação para operar botnets, alternar técnicas, distribuir tráfego e mudar de estratégia em tempo real. Por isso, defesas tradicionais e reativas podem não ser suficientes.

O que as empresas brasileiras precisam fazer para se proteger?

A primeira medida é mapear quais serviços são realmente críticos para a operação. Sites, aplicativos, APIs, sistemas de pagamento, plataformas de atendimento, DNS, CDN, hospedagem, links de internet e integrações com terceiros devem ser avaliados com antecedência. A empresa precisa saber exatamente quais pontos podem afetar o negócio caso fiquem indisponíveis.

Também é essencial revisar a proteção contra DDoS. Não basta ter uma solução contratada no papel. É preciso verificar se ela cobre ataques volumétricos, ataques em camada de aplicação e ofensivas com múltiplos vetores. Além disso, as equipes técnicas devem saber como acionar o serviço, quem deve ser comunicado e quais procedimentos seguir durante um incidente.

Outro ponto importante é testar os planos de contingência. Simulações ajudam a identificar falhas antes que elas apareçam em um momento crítico. Empresas que dependem de operação online devem realizar testes de carga, revisar fluxos de resposta, validar contatos de emergência e garantir que fornecedores estratégicos também estejam preparados.

Uma companhia pode ter uma boa estrutura interna, mas continuar vulnerável se o provedor de DNS, a CDN, o serviço de hospedagem, o gateway de pagamento ou a plataforma de atendimento não tiverem proteção adequada. A recomendação da NETSCOUT é que a preparação para grandes eventos seja tratada como parte de uma estratégia permanente de ciber-resiliência. Isso envolve visibilidade de rede, monitoramento em tempo real, uso de inteligência para identificar ameaças, automação defensiva e maior integração entre empresas, fornecedores e setores público e privado.

Quem depende de tráfego online, vendas digitais, transmissão de conteúdo ou atendimento em tempo real precisa se preparar antes do apito inicial. Afinal, em um evento acompanhado por bilhões de pessoas, ficar fora do ar pode custar muito mais do que alguns minutos de instabilidade.