Entrevista com Leandro "Le" Gouveia

Conheça o Leandro Damato de Gouveia, líder de um dos principais times de Call of Duty no Brasil e membro da primeira equipe brasileira a disputar um campeonato mundial do game

Por | @grasiel_grasel Games

Continuando a nossa série de entrevistas com alguns grandes nomes do cenário brasileiro de e-sports, hoje vamos falar com o Leandro Damato de Gouveia, mais conhecido apenas como "Le" nos campeonatos em que joga Call of Duty. Ele vai nos contar um pouco sobre a sua história com a SSOF, uma das equipes mais conhecidas e tradicionais do competitivo de COD.

Leandro tem 21 anos e está na SSOF desde quando ela foi formada há cinco anos, sendo que ele é o único jogador que está presente desde a primeira line da equipe, mostrando todo o amor que ele tem pela organização. Por duas vezes já sentiu na pele o que é disputar um campeonato mundial oficial organizado pela própria produtora da série Call of Duty, portanto, certamente tem muito a nos contar.

Ao largar a faculdade de Ciências Contábeis na FECAP e um emprego da área onde trabalhou por dois anos para se dedicar ao e-sports, Le decidiu mostrar para o Brasil e o mundo o que temos de melhor jogando Call of Duty. Na primeira vez que disputou o campeonato mundial, fez parte de uma equipe formada por um misto de jogadores da SSOF e uma outra grande equipe adversária, a SK, depois voltou a jogar somente por seu clã de origem, o qual hoje é capitão.

Por meio de uma chamada no Skype entrevistamos o capitão da SSOF e agora você confere o que rolou de melhor na nossa conversa.

Entrevista com Leandro "Le" Gouveia

Equipe - Quais são os títulos conquistados jogando competitivamente que você mais se orgulha?

Leandro - O título que mais me orgulho de ter ganho até hoje foi a primeira LAN que aconteceu no início do ano passado (2014), na Brazilian Series of Games (BSOG) de Call of Duty: Ghosts, onde joguei junto com meus companheiros de time: o Caio, o Ninja e o Ciber. A sensação de ganhar um presencial pela primeira vez é incrível, você fala: "Pô, consegui provar pela primeira vez, para todo mundo, que o nosso time é o melhor". Nesse campeonato também fui escolhido o melhor jogador, e mais tarde nos classificamos para o campeonato mundial, então, os três primeiros meses do ano passado foram incríveis.

Equipe - Qual é a sensação de alcançar o sonho de todo time de Call of Duty chegando no maior campeonato mundial de Call of Duty, o COD Championship, por mais de uma vez?

Leandro - A sensação é tão absurda que não tenho como descrever, se um dia você se classificar para um presencial mundial, faça de tudo para ir. Para mim, principalmente, sempre quis sair do Brasil e até o ano passado nunca tinha saído, quando nos classificamos e fomos para o mundial. Conseguir fazer duas coisas que eu gostaria juntas, que é jogar um mundial de Call of Duty e sair do país, dois grandes sonhos meus, foi uma sensação de realização pessoal absurda.

Nossa recepção em Los Angeles foi incrível, fomos bem acolhidos e todos os gastos foram pagos pela Acticision (publisher de Call of Duty), sem contar que este ano foi ainda melhor, já havíamos ficado em um hotel no topo do Staples Center e dessa vez ficamos em um outro onde ficam os jogadores que jogam contra os Lakers.

Equipe - Embora você tenha jogado o COD Championship 2014 pela Brazil 5 Stars, que é uma "seleção brasileira" formada por jogadores da SSOF e da SK, como foi ver o seu time do coração, o SSOF sendo desclassificado?

Leandro - Este problema aconteceu pelo fato de que uma outra pessoa estava atuando no time nesta parte de administração, eu tomava conta unicamente do Brazil 5 Stars, mas esse outro "cara" acabou tendo algunss problemas que eu sequer tinha conhecimento, nem treinava mais com a SSOF, estava focado apenas no B5S. Quando voltei do Los Angeles e finalmente descobri o que havia acontecido, pedi desculpa para os fãs do SSOF, pois não queria que isso acontecesse com o Brasil, principalmente por ter sido com meu time de coração. Enfim, acabei pedindo desculpas por uma coisa que eu não fiz, mas foi mais para deixar a galera tranquilizada sobre isso. Foi triste não só por ter sido o SSOF, mas também por terem que realizar o campeonato com um time brasileiro a menos.

Não me importei tanto pelo fato de que, na nossa line tradicional, eu era o único maior de 18 anos e, portanto, só eu poderia disputar o mundial, então, esse novo responsável pela SSOF teve que buscar jogadores maiores de idade aleatoriamente para formar uma nova equipe que pudesse ir para Los Angeles, ou seja, eu não era tão amigo desses players, pois mal conhecia eles, no entanto, como o time ficou "mal falado" na época, eu acabei ficando um pouco chateado com isso. Hoje o SSOF voltou a ser respeitado e esse antigo administrador já não tem mais ligação nenhuma com o time.

Equipe - É possível viver com a renda de um jogador de e-sports? Novos times são capazes de pagar seus jogadores?

Leandro - Atualmente são poucas pessoas que conseguem viver só jogando competitivamente, eu, como não tenho despesa com moradia,  alimentação outros custos básicos, pois moro com meus pais, consigo tirar uma renda por trabalhar na Major League Gaming (MLG) fazendo livestreams. A MLG é a plataforma que mais paga seus streamers no mundo inteiro, então, pessoas que conseguem um contrato e tem um certo público fiel tiram uma boa renda com isso. Tem também os campeonatos onde a gente ganha e patrocínios de empresas, que ajudam bastante, mas nem sempre são o suficiente.

Equipe - Existe uma certa rotina de treino para a equipe? Vocês costumam convidar outras equipes para treinar?

Leandro - A gente joga contra outras equipes, temos uma horário definido para treinar e geralmente jogamos três modos de jogo: o Uplink, Search & Destroy e Hardpoint. Convidamos ou somos convidados por algum outro time profissional de qualquer lugar do país e realizamos partidas para treinarmos. O único modo de jogo que costumamos não treinar contra outros times é o Search & Destroy, que requer muita tática por não ter repawn (quando o jogador renasce depois de morrer) em um round, dessa forma, times poderiam entender nossas estratégias e aprender como inutilizá-las.

Equipe - Quais são os principais campeonatos de Call of Duty que ocorrem aqui no Brasil? Você acha que poderiam existir mais competições nacionais?

Leandro - Os principais campeonatos que ocorrem aqui no Brasil são a Pro League da MLG, que já estará chegando na sua terceira temporada. Tem também a BSOG, que não é bem um campeonato, pois dentro dela ocorrem vários eventos, ocorrem desde campeonatos patrocinados pela GG Controles, a GG Cup, a até outros patrocinadores que queiram investir, até a Razer já promoveu campeonatos com a BSOG, portanto, depende muito de quem está investindo, não existe um nome fixo pra os campeonatos que acontecem.

Aconteceram alguns problemas a um tempo atrás a respeito de pagamentos de premiações, o que pode acabar influenciando novos investidores a não aplicarem em novas competições, no entanto, já resolvemos este problema e está tudo certo. Para novos patrocinadores, o retorno que oferecemos com publicidade é, sem dúvidas, o suficiente para termos mais investidores nacionais, pois podemos influenciar muitos de nossos fãs a comprar algum produto.

Equipe - Existe muita rivalidade entre os times que disputam os mesmos campeonatos que vocês? Qual equipe seria a maior rival da SSOF hoje?

Leandro - Atualmente a Callidus, no ano passado ganhamos um campeonato e eles ganharam os outros dois que tiveram, neste ano, a maioria das finais que vem acontecendo estão sendo entre nós e o Callidus, de vez em quando a gente ganha, embora eles venham vencendo mais vezes. Mudamos a line a pouco tempo e agora estamos com um jogador novo, acredito que esta seja a chave para voltarmos a ganhar a maioria dos campeonatos novamente.

Entrevista com Leandro "Le" Gouveia

Equipe - Houve um tempo quando os campeonatos de Call of Duty eram mais bem vistos, você acha que esta queda é um reflexo da queda da popularidade da série?

Leandro - Teve muita gente que reclamou e notou a queda do Call of Duty: Black Ops II para o Ghosts, no entanto, ela pode estar ligada a outros fatores. Muitos culpam a MLG por não investir na Twitch e resolver manter uma plataforma de Stream de campeonatos de Call of Duty em sua própria plataforma, que querendo ou não dificilmente atingirá a popularidade da concorrente. Na Twitch, por exemplo, você tem a facilidade de encontrar streams por jogo, o que facilita muito a chegada de novos viewers, se a MLG permitisse o stream de campeonatos por lá, teríamos uma quantidade muito maior de visualizações só por pessoas procurarem streams de Call of Duty. Acredito que 90% das pessoas que acessam o site da MLG sejam jogadores, portanto, dificilmente vão acabar caindo em uma livestream de um campeonato como acontece na Twitch.

Equipe - Sabe dizer por que ainda existe tanto preconceito com jogadores de e-sports aqui no Brasil?

Leandro - Para mim, uma das coisas que mais afeta esse negócio de vídeogame virando esporte aqui no Brasil é o custo elevado para adquirir um console ou um computador gamer, isso dificulta para os consumidores conhecerem novos jogos que possam lhe chamar a atenção e consequentemente fazerem eles procurarem campeonatos do mesmo. Falando sobre o futebol, por exemplo, todos tem acesso a uma bola ou uma tênis muito facilmente, portanto, podem jogar e gostar do esporte, o que os fará buscar assistir competições. Outro bom exemplo é o apoio do governo, onde podemos citar um exemplo, que foi o ocorrido com uma equipe dos Estados Unidos, que estava passando dificuldades para conseguir um visto para viajarem para a Coreia onde jogariam um campeonato de League of Legends a cerca de dois anos atrás, para solucionar o problema, o governo americano criou um tipo de visto exclusivo para competidores de e-sports. Em resumo, acho que o principal problema vem do governo, que não incentiva o crescimento e acaba formando opiniões erradas sobre o povo que não conhece os jogos, quando falo para alguém que ganho dinheiro jogando videogame, várias perguntas e dúvidas surgem, muitos até conhecem o e-sports, mas por não saberem como funciona, acabam sendo preconceituosos.

Equipe - Você está satisfeito com o cenário competitivo brasileiro? Acha que deveria mudar alguma coisa?

Leandro - A galera que participa do competitivo de Call of Duty no Brasil é bem legal, dificilmente vemos pessoas ruins. O que acho mais interessante é que podemos conhecer pessoas de vários lugares do país só jogando com elas e, nos campeonatos presenciais, podemos finalmente encontrá-las.

O que acho que poderia mudar é o pessoal da própria comunidade começar a investir mais em mídias pessoais como, por exemplo, eu mesmo, que invisto no meu canal do YouTube, na minha plataforma de stream, tanto que sou um dos brasileiros que mais tem seguidores na comunidade. O que falta é isso, o pessoal investir na própria imagem para chamar mais fãs para o competitivo. Não ganhar campeonatos não quer dizer que você não vá ganhar dinheiro, investindo em mídias pessoais como vídeos e streams pode te render mais do que em premiações.

Equipe - Por que você acha importante empresas investirem no e-sports de Call of Duty seja com patrocínios ou eventos de LAN?

Leandro - Se você tiver uma empresa que é relacionada a games, pode ter certeza que algum retorno você terá, nem que você tenha que pagar alguns trocados para a sua marca aparecer por 10 segundos durante a transmissão de um evento. Um bom exemplo é a Benq, que é patrocinadora do nosso time: várias pessoas vêm me perguntar que monitor que uso para jogar, se tenho algum código de desconto para comprar com eles e sempre recomendo patrocinadores, o mesmo vale para outro patrocinador, a GG controles, que oferece controles personalizados para nós e outros patrocínios, assim nossos fãs buscam saber qual controle estamos usando para comprarem um igual.

Sempre tomamos muito cuidado antes de anunciar uma marca, procuramos saber se ela é realmente boa no que faz para que o nosso nome não fique manchado, o que acabaria com a nossa influência sobre os viewers.

Para quem vende equipamentos para computador, não quer dizer que pelo fato de que o campeonato organizado seja de console que você não vá ter retorno, a maioria dos jogos tem versão para computador e viewers podem procurar saber quais seriam bons equipamentos de PC para jogarem os jogos que competimos nos consoles. Acho que não existe limites para novos patrocinadores, no entanto, talvez valha muito mais a pena investir se você tiver uma empresa ligada a games.

Equipe - Qual é o conselho que você pode dar para jogadores que querem começar no e-sports de Call of Duty?

Leandro - Não só no e-sports, mas em qualquer equipe em que você esteja inserido, a primeira coisa que você deve demonstrar é respeito, que é a chave para receber ainda mais respeito de volta. Pessoas vão querer jogar com você, vão te procurar tanto por você jogar bem quanto por ser uma boa pessoa. Tudo o que você precisa é treino e respeito.

Um bom exemplo é a equipe do Supremacy eSports, um time novo que começou vencendo uma equipe boa e gerou curiosidade sobre toda a comunidade, "será que foi sorte? Será que os caras são bons mesmo?", no próximo campeonato apresentaram bons resultados novamente. Eram 4 jogadores que ninguém conhecia, jogaram juntos, se deram bem e resolveram ingressar no e-sports respeitando a todas as grandes equipes que venciam. A respeito disso, gosto de repetir aquela frase: "trabalhe em silêncio e deixe o seu sucesso fazer o barulho".

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Essa foi a nossa entrevista com o Leandro "Le" Gouveia, um dos melhores players de Call of Duty no Brasil, que já representou nosso país por duas vezes no maior evento do mundo envolvendo o game. Se você gostou dessa entrevista e quer ver outras relacionadas ao e-sports, fique ligado em nosso site, em breve teremos mais conteúdo relacionado a este.

Mais sobre: especiale-sports entrevistas CallofDuty
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