A Motorola sofreu uma derrota no mercado brasileiro e terá que mudar a forma como apresenta a quantidade de memória RAM de alguns de seus celulares no Brasil. O Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) decidiu por unanimidade que a fabricante deve alterar a publicidade relacionada ao recurso RAM Boost, que permite usar parte do armazenamento interno como memória virtual.
A decisão foi descoberta primeiro pelo Tecnoblog e tomada na quinta-feira (24), durante uma sessão conjunta da 5ª e da 8ª Câmaras do Conselho de Ética. O caso aparece no registro oficial como Representação nº 184/26, "Motorola Mobility Comércio de Produtos Eletrônicos - Memória RAM boost", com resultado de alteração por unanimidade.
A discussão envolve uma expressão que se tornou comum nas páginas da Motorola: aparelhos anunciados com "até 24 GB de RAM", mesmo quando parte dessa capacidade é obtida por meio do RAM Boost e não corresponde à memória RAM física instalada no celular. Com a decisão, isso terá de mudar.
O que o Conar determinou contra a Motorola?
O problema aqui não é o RAM Boost especificamente. A Motorola poderá continuar oferecendo esse recurso em seus celulares, porém a divuldação deverá ser diferente.
Normalmente a Motorola tem divulgado o número final que envolve a soma entre a RAM física e a RAM virtual, que nada mais é uma que uma "memória emprestada" e isso pode causar confusão para o consumidor, já que isso não fica claro sobre o que é RAM física ou virtual.
Por exemplo, um celular com 8 GB de RAM física e até 16 GB de RAM Boost pode ser apresentado como tendo até 24 GB de RAM. Só que os 16 GB adicionais não são chips de memória RAM instalados no aparelho. Foi justamente essa forma de comunicação que entrou na mira do Conar.
A análise considera as regras do Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária, que estabelecem, entre outros pontos, que as informações apresentadas em anúncios devem ser verdadeiras e não podem levar o consumidor a uma interpretação equivocada sobre o produto.
Como destaca o Tecnoblog, essa alteração deverá atingir tantos os materiais publicitários da Motorola em meios digitais como também em pontos de venda físicos.
Vale lembrar que o Conar é uma entidade privada de autorregulamentação do mercado publicitário. Portanto, a decisão não equivale a uma sentença judicial nem representa uma multa aplicada por um órgão estatal.
Afinal, qual é a diferença entre RAM física e RAM Boost?
A RAM física é a memória instalada no celular. Ela trabalha diretamente com o processador para manter temporariamente o sistema, aplicativos e dados que precisam ser acessados rapidamente.
O RAM Boost, por outro lado, é uma forma de memória virtual. Ele pega emprestada uma parte do armazenamento interno do aparelho que não está sendo utilizado e passa a funcionar como uma extensão da RAM em determinadas situações.
Isso significa que um celular não passa a ter fisicamente aquela quantidade adicional de memória. A própria Motorola explica que o RAM Boost utiliza espaço do armazenamento interno e não corresponde à RAM física. A função também pode ser desativada pelo usuário.
Por isso, quando um aparelho aparece com a especificação: 8 GB de RAM + até 16 GB de RAM Boost = até 24 GB, na prática, ele continua tendo 8 GB de RAM física. Os outros 16 GB correspondem à expansão virtual.
Quanto de RAM os celulares da Motorola realmente tem?
O Moto G86 ajuda a deixar a diferença bem clara. A Motorola divulga o aparelho com até 24 GB de RAM, mas a especificação detalha que são 8 GB de RAM física + até 16 GB de RAM Boost Inteligente. Ou seja, os 24 GB não representam 24 GB de memória RAM física.
Existem outros modelos que seguem a mesma lógica. Por exemplo, no Edge 70 de 256 GB, os 24 GB são formados por 8 GB de RAM física e até 16 GB de RAM Boost. Já a versão de 512 GB tem 12 GB de RAM física e até 12 GB virtuais.
Mesmo caso do Edge 70 Pro que também chega aos 24 GB anunciados combinando 12 GB físicos com até 12 GB de RAM Boost. O mesmo acontece no Motorola Signature.
Já o Moto G47 tem apenas 4 GB de RAM física e pode adicionar até 8 GB por meio do RAM Boost, chegando aos 12 GB divulgados pela fabricante.
Veja uma tabela para entender melhor a diferença do que é divulgado e o que é RAM física:
| Modelo | RAM física | RAM Boost | Total divulgado |
|---|---|---|---|
| Moto G86 | 8 GB | até 16 GB | até 24 GB |
| Moto G47 | 4 GB | até 8 GB | até 12 GB |
| Edge 70 (256 GB) | 8 GB | até 16 GB | até 24 GB |
| Edge 70 (512 GB) | 12 GB | até 12 GB | até 24 GB |
| Edge 70 Pro | 12 GB | até 12 GB | até 24 GB |
| Motorola Signature | 12 GB | até 12 GB | até 24 GB |
RAM Boost ocupa espaço do armazenamento
Outro detalhe que costuma passar despercebido é que a memória virtual precisa de espaço para funcionar. A própria Motorola explica que o RAM Boost utiliza parte do armazenamento interno do celular. Segundo a documentação da fabricante, o espaço ocupado corresponde a aproximadamente um terço da quantidade de RAM virtual pretendida.
Em um aparelho configurado para utilizar 16 GB de RAM Boost, por exemplo, isso representa aproximadamente 5,3 GB do armazenamento interno reservado para o recurso. Esse espaço deixa de estar disponível para fotos, vídeos, aplicativos, jogos e outros arquivos.
A mesma lógica vale para recursos semelhantes oferecidos por outras fabricantes. A Samsung, por exemplo, utiliza o nome RAM Plus, enquanto outras marcas também oferecem diferentes formas de expansão virtual.
Motorola parou de divulgar "até 24 GB de RAM"?
De acordo com o Tecnoblog, na sexta-feira (25) a expressão "até 24 GB de RAM" ainda aparecia nas páginas de alguns celulares da Motorola. Porém, em uma nova verificação realizada pelo Oficina da Net nesta segunda-feira (28), não localizamos mais essa forma de divulgação nos modelos consultados.
Na página do Moto G86, por exemplo, a informação agora aparece de maneira mais clara: o aparelho tem 8 GB de RAM física, enquanto os outros 16 GB correspondem ao RAM Boost Inteligente, que utiliza parte do armazenamento interno como memória virtual.
O mesmo acontece na página do Edge 70, que também passou a deixar explícita a divisão entre a RAM física instalada no aparelho e a capacidade adicional oferecida pelo RAM Boost.
A mudança, portanto, deixa mais claro para o consumidor que a expressão "24 GB de RAM" não representa 24 GB de memória física instalada no celular.
Vale lembrar que o processo trata de autorregulamentação publicitária. A Motorola ainda pode recorrer da decisão, e o registro público do Conar determina a alteração da publicidade, mas não estabelece um prazo específico para que isso seja feito nem prevê, no documento publicado, uma multa automática em caso de descumprimento.
O Oficina da Net também procurou verificar a mudança diretamente nas páginas oficiais da fabricante. Caso a Motorola queira esclarecer a alteração ou apresentar sua posição sobre a decisão do Conar, o espaço permanece aberto para manifestação.
Com informações de Tecnoblog e TV Sim Brasil






