Os "carros voadores" não são mais coisa de cinema. O eVTOL desenvolvido pela Eve Air Mobility, empresa ligada ao ecossistema da Embraer, já iniciou sua campanha de testes em voo no interior de São Paulo e alcançou a marca de 50 voos bem-sucedidos com seu protótipo em escala real. É verdade que, apesar do apelido popular, não se trata de um carro comum que sai da rua e começa a voar.
O veículo é um eVTOL, sigla em inglês para aeronave elétrica de decolagem e pouso vertical. É uma espécie de táxi aéreo elétrico pensado para rotas curtas dentro de grandes regiões urbanas, como deslocamentos entre aeroportos, centros financeiros, eventos e áreas com trânsito intenso.
A Eve informou que o primeiro voo do protótipo em escala real aconteceu em 19 de dezembro de 2025, no centro de testes da Embraer em Gavião Peixoto, no estado de São Paulo. O voo marcou o início da fase de testes e serviu para validar sistemas importantes da aeronave, como controles fly-by-wire, rotores de sustentação e propulsão integrada.
Desde então, o projeto avançou. Em abril de 2026, a Eve anunciou que o protótipo já havia completado 50 voos de teste, acumulando mais de duas horas de voo e gerando dados para a próxima etapa de desenvolvimento e certificação.
Como é o carro voador da Embraer?
O eVTOL da Eve foi projetado para ser 100% elétrico e operar em missões de mobilidade aérea urbana. Segundo a fabricante, a aeronave tem oito rotores, configuração lift + cruise, asas fixas para o voo de cruzeiro e autonomia estimada de 100 km.
A capacidade inicial prevista é de quatro passageiros mais um piloto. No futuro, quando operações sem piloto forem certificadas, a empresa afirma que a configuração poderá levar até seis passageiros.
O grande diferencial está no tipo de operação. Como decola e pousa verticalmente, o eVTOL não precisa de uma pista convencional como a de um avião. A ideia é que ele opere a partir de vertiportos, estruturas semelhantes a pequenos terminais de pouso e embarque, instaladas em pontos estratégicos das cidades.
Em vez de competir com carros de passeio, o eVTOL deve mirar trajetos onde o transporte terrestre é lento, imprevisível ou muito demorado. Viagens entre bairros distantes, aeroportos e centros empresariais estão entre os usos mais prováveis.
Por isso, a capital paulista aparece como uma das regiões mais interessantes para a mobilidade aérea urbana no Brasil. Em outubro de 2025, a Eve e a InvestSP promoveram um encontro em São Paulo para discutir regulação, infraestrutura, vertiportos e formação de profissionais para futuras operações de eVTOL no país.
A empresa também tem ligação com a Revo, operadora de mobilidade aérea urbana sediada em São Paulo. Em 2025, a Eve anunciou um acordo com a Revo envolvendo até 50 eVTOLs e serviços relacionados, reforçando a ideia de que o Brasil pode estar entre os primeiros mercados de operação da aeronave.
Ele já pode transportar passageiros?
Ainda não. Os voos atuais fazem parte da campanha de testes do protótipo. A Eve afirma que pretende produzir seis protótipos conformes para a campanha de certificação, em diálogo com a ANAC, autoridade brasileira responsável pelo processo. A empresa trabalha com expectativa de certificação, primeiras entregas e entrada em serviço em 2027, mas isso depende da evolução técnica e regulatória.
A ANAC já publicou critérios de aeronavegabilidade para o modelo EVE-10, um passo importante no processo de certificação. Esses critérios envolvem áreas como estrutura, sistemas de controle, propulsão e bateria, pontos essenciais para garantir segurança antes de qualquer operação comercial. Por isso, ainda não está disponível para o público.
O que falta para virar realidade?
A aeronave é apenas uma parte do desafio. Para que eVTOLs operem em cidades como São Paulo, será necessário criar uma estrutura completa ao redor da tecnologia.
Isso inclui:
- certificação da aeronave;
- regras para pilotos e operação;
- vertiportos em pontos estratégicos;
- sistemas de recarga elétrica;
- integração com controle de tráfego aéreo;
- rotas urbanas seguras;
- aceitação pública;
- modelo de preço viável.
Esse último ponto é essencial. No começo, é provável que o eVTOL seja usado em rotas premium, como acontece hoje com helicópteros. A diferença é que a promessa dos eVTOLs está no menor ruído, operação elétrica e possibilidade de reduzir custos ao longo do tempo.
É mesmo um carro voador?
Tecnicamente, não. O termo correto é eVTOL, mas "carro voador" virou o apelido popular porque ajuda o público a entender a proposta: um veículo elétrico, menor que um avião convencional, capaz de decolar verticalmente e transportar pessoas em trajetos urbanos.
A diferença é importante. O eVTOL da Eve não foi feito para rodar nas ruas como um automóvel. Ele é uma aeronave elétrica. Portanto, sua operação dependerá de infraestrutura aeronáutica, autorização regulatória e rotas controladas.
Mesmo assim, o apelido pegou porque traduz bem a sensação de futuro. Afinal, por décadas, carros voadores foram tratados como símbolo de ficção científica. Agora, a tecnologia começa a sair dos desenhos e entrar em testes reais no Brasil.
Quando o eVTOL pode começar a operar?
A Eve trabalha com a expectativa de entrada em serviço em 2027, após certificação e conclusão das etapas de teste. Antes disso, a empresa deve continuar expandindo a campanha de voos, avaliando velocidade, estabilidade, consumo de energia, ruído, vibração e comportamento da aeronave.
Em abril de 2026, a companhia informou que os testes já estavam avançando para avaliações mais amplas do envelope de voo, com transições completas previstas ao longo do ano.