Site 2.0 não é instituição de caridade

Cultura colaborativa pode ser confundida com ausência de modelos de negócio. Cuidado! Na noite da última quarta, dia 19, estive na Escola de Comunicação e Arte (ECA) da Universidade de São Paulo (USP), conversando com uma turma de estudantes sobre jornalismo colaborativo.

Por | @oficinadanet Programação
Na noite da última quarta, dia 19, estive na Escola de Comunicação e Arte (ECA) da Universidade de São Paulo (USP), conversando com uma turma de estudantes sobre jornalismo colaborativo. Como de costume, nas palestras que faço sobre esse tema, mostrei as diferenças entre um modelo "cathedral" de produção de informação (estilo jornal, revista, rádio e TV), onde um fala e muitos escutam e outro modelo "bazaar" de atividade de imprensa (digital) onde todos falam e todos escutam. Essa é a raiz de qualquer modelo colaborativo.

Quando se aplica essa estrutura em que a mensagem circula de-muitos-para-muitos (e não apenas de-um-para-muitos, como nos veículos tradicionais) ao jornalismo, significa que o conteúdo editorial não é mais produzido apenas por jornalistas, mas por qualquer pessoa que tenha conhecimento da pauta que deseja abordar. Com isso, o poder de fala se abre, se espalha.

Na conversa dessa quarta apresentei aos estudantes como funciona o OhmyNews: seus processos editoriais, sua estrutura administrativa, o trabalho de seus profissionais, a intervenção do cidadão leigo na construção do conteúdo editorial.

Antes de cada artigo entrar na página do OhmyNews, uma equipe de jornalistas, baseados numa redação no centro de Seul, seleciona os materiais, checa as informações repassadas pelo cidadão-repórter, edita o texto e, com isso, confere ao conteúdo a chancela jornalística. É isso que diferencia, por exemplo, um noticiário colaborativo, como o OhmyNews de uma plataforma de conteúdo colaborativo, como o You Tube.

Para manter essa estrutura, o OhmyNews, enquanto empresa, adotou a publicidade como sua maior fonte de receita. Parte dessa verba é passada ao cidadão-repórter na forma de uma remuneração simbólica. Cada artigo pode render ao seu autor o equivalente a 10 ou 20 dólares, o que não paga uma refeição simples em Seul.

Ao ouvir isso, uma estudante me pergunta, com certo ar de indignação: "Mas se o OhmyNews ganha dinheiro com publicidade e ainda seleciona quais textos são publicados e quais não são, então não há nada de colaborativo aí! Que democracia é essa?"

Descontando a natureza irritantemente politizada e crítica de alguns uspianos, suspirei fundo e tentei explicar: o OhmyNews é uma empresa. Como tal, deve gerar lucro para sobreviver, para pagar o salário daqueles jornalistas que editam o teu texto e dão a ele caráter jornalístico. A diferença entre a "empresa OhmyNews" e a "empresa Globo", por exemplo, é que a segunda não admite que tu interfiras no conteúdo dela.

Sem querer, essa menina levantou uma questão altamente preocupante: há quem pense que ser 2.0, horizontal, colaborativo é o mesmo que fazer caridade. Se assim fosse, o YouTube não teria sido vendido por US$ 1,6 bi.

Oras! O YouTube não é um espaço colaborativo? Não é onde qualquer pessoa pode tornar pública a sua produção em vídeo? Pode se manifestar? Onde qualquer internauta ganha poder de fala sem pagar um tostão por isso? Então o Google deveria ser uma entidade beneficente? Uma espécie de organização sem fins lucrativos?

Não sejamos ingênuos! Qualquer produto ou serviço disponível na rede tem seu preço. Talvez quem o pague não seja o consumidor final, mas alguma empresa que aposta naquele espaço para ter visibilidade. E isso é absolutamente natural! Basta pensarmos que plataformas de conteúdo colaborativo não apareceram por geração espontânea. Alguém trabalhou sobre seu desenvolvimento, há custos com sua manutenção. Assim, para sua sobrevida saudável, a geração de receita não transforma a iniciativa em algo "do mal".

Experimentamos uma cultura aberta, onde a informação circula livremente, talvez como nunca antes visto. A web chegou à sua versão 2.0 justamente em função dessa abertura. A produção e o acesso à informação mudaram radicalmente. Mas essa mudança está longe de representar o fantasma do comunismo em sua forma digital.

Não confunda caridade com colaboração.

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