Nem todo o site pode ser 2.0

Está pensando em criar uma comunidade em seu site? Antes leia isso. Semana passada recebi um convite para o Facebook. Vinha de uma colega em Londres. Poucos dias antes eu estava justamente discutindo comunidades online com um amigo e ele citou o Facebook como o grande substituto do Orkut.

Por | @oficinadanet Programação
Semana passada recebi um convite para o Facebook. Vinha de uma colega em Londres. Poucos dias antes eu estava justamente discutindo comunidades online com um amigo e ele citou o Facebook como o grande substituto do Orkut. O grande diferencial me pareceu a liberação da API (Application Programming Interface), que permite ao internauta criar novas funcionalidades e até mesmo rodar seus próprios softwares dentro do ambiente. Ótimo! Mas em que isso melhora a minha vida? Meus conhecimentos técnicos inexistem. Quando entro em um ambiente de relacionamento e sou surpreendida por um graaaande benefício que exige uma aptidão que não tenho, a frustração é inevitável. Ainda assim, aceitei o convite da amiga inglesa. Há sete dias. E nesta última semana devo ter acessado o Orkut umas 10 vezes (pouco, até), já o Facebook... nenhuma. Minha lista de amigos está vazia. Até mesmo a colega que me enviou o convite deixou um recado avisando que abandonava aquela plataforma em função dela tomar uma parte excessiva de sua vida online. Que fazer em uma rede de relacionamentos onde ainda não tenho nem rede, tampouco com quem me relacionar?

Observe que esse primeiro contato com o Facebook me trouxe dois grandes limitadores: a falta de domínio sobre o que a plataforma oferece e a ausência de pessoas que me são interessantes. Isso me fez pensar em sites estáticos, apavorados com o fenômeno 2.0, que querem se tornar dinâmicos, interativos e – pior! – colaborativos imediatamente. Ora, todos sabemos que, no ambiente digital, as inovações já chegam superadas. Mas essa pressa em ser 2.0 está fazendo com que pessoas envolvidas na produção de sites cometam erros típicos da afobação, como a falta de planejamento e reflexão sobre a essência do projeto.

Enquanto se preocupam em listar quais as mileuma funcionalidades que esses espaços de relacionamento terão, se esquecem de perguntar: por que o site X terá uma comunidade? É a velha questão da relevância, da pertinência que passa batido na ânsia de se criar uma rede de internautas, cada um com seus perfis pessoais, lista de amigos, comunidades, espaços de conversação, álbum de figurinhas... Eu acho que já vi isso antes...

Não sejamos ingênuos a ponto de imaginar que uma quantidade considerável de internautas vai deixar de frequentar o Orkut do dia prá noite e passar a usar os serviços do seu site que, aliás, não tem em comunidade virtual o seu carro-chefe. Suponhamos, então, que essa massa não abandone o Orkut e apenas incorpore o hábito de frequentar e participar da comunidade do seu site à sua rotina de navegação. Se isso acontecer com todos os sites que querem criar comunidades, certamente o dia deveria ter mais de 24 horas. E não me refiro ao sentido figurado do tempo comprimindo informações. É ilusório querer que grandes públicos pertençam a inúmeras comunidades simultaneamente. Por uma razão simples: por que farei no seu site as mesmas coisas que já faço (e muito bem servida!) no Orkut? Por que publicarei os mesmos vídeos? Direi as mesmas informações a meu respeito? Participarei das mesmas discussões? Por que deixarei scrap para os mesmos amigos? Aqui, aliás, mora outro fator que inibe o pipocar de comunidades por aí.

Uma comunidade só faz sentido quando seus membros a reconhecem como tal. Só quando eu encontro meus amigos por lá e isso faz com que eu me sinta pertencente àquele grupo. Então, o que farei em um espaço onde meus amigos ainda não chegaram?

Comecei falando do Facebook, mas é possível que, daqui a um tempo, reveja minha postura. Hoje o Facebook não faz o menor sentido para mim, já que ele ainda não substituiu o potencial agregador e o sentimento de pertença social que o Orkut ainda me proporciona. Tentei o Multiply. Não durou. Tentei Second Life. E mais uma vez a enormidade de proveitos que se pode tirar daquela plataforma me sufocou. Me senti "exupulsa" depois de 10 minutos voando em algum território vazio e que, entre tantas opções, nada sabia fazer. Ou simplesmente não estava a fim! Porque já faço isso de forma semelhante em outro lugar.

Se as funcionalidades que diferenciam o Facebook das demais redes sociais se tornarem acessíveis a quem não tem domínio da técnica – digamos, a maioria dos internautas brasileiros – e se, além disso, houver uma migração em massa da minha rede de amigos para lá, é possível que eu comece a cogitar a hipótese de substituir o Orkut. Mas estou falando do Facebook! Do case de maior sucesso entre os jovens americanos, com 30 milhões de usuários no mundo! E não da comunidade X de um site Y que não tem sua marca naturalmente dedicada a redes sociais!

Creio que essas razões já sejam suficientes para se entender que não basta uma boa plataforma para que haja uma comunidade. A tecnologia ajuda – e muito! – para que pessoas com os mesmos interesses se encontrem e troquem conhecimento. Mas não é suficiente. Comunidades se criam – assim mesmo, no reflexivo, se AUTO-criam, se REconhecem e só assim se legitimam. É preciso que haja uma boa razão para seu site ser o ponto de encontro de um grupo de internautas. Principalmente se ele não é tradicionalmente conhecido por isso. Para além, é preciso haver uma postura pró-ativa de sua parte até atrair esse grupo a ponto de deixá-lo caminhar com as próprias pernas. E quando isso acontecer, comemore! Essa aparente "perda de controle" é uma conquista e não um motivo para desespero. Sua comunidade deu tão certo a ponto de dispensar o seu papel no gerenciamento. Mas isso é assunto para outra conversa...

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