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Programadores e hackers formam uma nova aristocracia

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Data: 03/03/2007  |  Visualizações: 498  |  0 Comentário(s)  |  Via: G1
Um grupo não muito pequeno de pessoas está por trás das tecnologias de informação e comunicação que tornam a internet uma realidade. Seriam eles a aristocracia da rede, da informação e da comunicação?

O escritor Luís Fernando Veríssimo é um usuário competente da internet. Não só ele, mas gente que passa por ele e bombardeia nossos emeios com escritos “assinados” por LFV. Segundo Veríssimo, que entende o caos da rede de hoje, enquanto não o processarem por isso, tudo bem.

Veríssimo é o entrevistado da revista Mídia com Democracia de janeiro de 2007 (pegue aqui o .pdf) e a conversa acaba assim: “MCDComo o senhor avalia as novas ferramentas de comunicação eletrônica do ponto de vista da democratização da comunicação? VeríssimoHá uma democratização da comunicação evidente, mas também me parece que se formou uma espécie de aristocracia mundial, ligada não por laços de sangue nobre, mas pelo domínio da nova tecnologia. E uma aristocracia que raramente larga o computador e vai para rua ver como vive a humanidade real. E é meio assustador pensar no poder que eles estão acumulando sem sair de casa.

Como a resposta parece de Veríssimo, está ao lado de uma foto dele, impressa numa revista séria (que tenho em papel de verdade), ele deve ter dito isso mesmo. Pois bem. Aristocracia vem do grego aristokratía, αριστοκρατία. Aristos significa “os melhores”, mais capazes, mais competentes. E kratía é poder, governo, “dar” ou definir as regras. Por outro lado, a aristocracia era “os bem nascidos”, que iriam mandar sem serem necessariamente melhores, mais capazes ou competentes. Este é o siginificado que a palavra tem hoje, meio longe do original grego.

Veríssimo usa as duas acepções em sua resposta, e se assusta ao pensar que uma certa população da rede é, hoje, uma aristocracia, um grupo que tem poder pelo seu conhecimento e habilidades essenciais ao funcionamento do mundo digital. Quem são? Programadores, engenheiros de software, pilotos da rede, de sua confiabilidade, performance e segurança, hackers em geral, do bem e do mal e mais todo mundo que domina as tecnologias da informação e comunicação acima dos mortais comuns, como nós, que só sabemos navegar, publicar um texto, foto ou vídeo e buscar, encontrar, trazer, instalar um software e usá-lo, isso se não houver o que configurar.

Até aí, novidade zero: na história, em qualquer época, houve aristocracias do saber e competência… os “codificadores” atuais, exemplificados pelos programadores de todos os tipos, são apenas a aristocracia da hora. Com uma gigantesca diferença: na rede, o código, o software, é a regra. Define o comportamento, cria alternativas, limita opções. Lawrence Lessig, em Code and Other Laws of Cyberspace, já deixava claro em 1999 que code IS law: código é lei. E quem faz a lei tem poder. Grande discussão pra futuros próximos… e por muito tempo. Porque o futuro será codificado em software. E na rede, sem que as pessoas (pelo menos as que codificam a rede) precisem “sair de casa”, pois a casa delas é a rede. E no futuro não será a rede que estará no “mundo real”, mas o “mundo real” que estará na rede…

Voltando à aristocracia, já houve época em que o mundo era movido a textos religiosos, guias de moral e conduta, tábuas da lei, escadas para a salvação. Na aristocracia dos textos sagrados da Idade Média, os monges copistas estavam lá no alto. Hoje, software cuida da freio ABS a imposto de renda. A cada dia, mais serviços, mais complexos, são oferecidos para mais gente, e haverá muito mais software cuidando de quase tudo que alguém pensa em começar, sem falar do que já existe. À medida que a economia acelera, em parte por causa de software, haverá mais software, mais sofisticado, feito em prazos mais exíguos, com exigências crescentes de funcionalidade, qualidade, rapidez e satisfação. Tudo isso tem que ser especificado, desenhado e projetado para ser, em última análise, “programado” pela tal “aristocracia” de que nos fala Veríssimo.

Milhões de pessoas vivem da escrita de código em todo o mundo. Muitos não se imaginam e tampouco se sentem aristocratas. Os programadores da Índia, daqui e dos EUA são os equivalentes modernos dos monges copistas: por horas a fio, deitam olhos sobre especificações (no caso dos monges, livros a copiar; hoje, requisitos a implementar) e produzem o código que faz funcionar a sociedade. Algo me diz que os monges-programadores (e seus estagiários), esperam (uns ansiosos, outros preocupados) pelo Gutenberg da programação.

A prensa de tipos móveis dizimou a profissão de “copista” em cinqüenta anos. Meio século de programação de computadores multiplicou por mais de 500 o número de instruções executadas pelas máquinas em relação às linhas de código escritas pelos programadores. No médio prazo, o ato de escrever código vai ser ainda mais modificado por ferramentas de melhoria de produtividade e qualidade. Durante muito tempo, ainda, vamos ter programadores escrevendo código “fonte”. Mas não há dúvida de que uma parte cada vez maior da tarefa --a parte menos criativa e mais repetitiva-- será construída de forma automática a partir da especificação, por um ou mais tipos de geradores automáticos. Os programadores, nossos “aristocratas”, terão que subir degraus na escada da competência e trabalhar em problemas mais abstratos do que as declarações de variáveis e trechos de código que são obrigados a repetir dia após dia, hoje.

E isso não será novidade. Sempre que dependemos de milhões ou dezenas de milhões de pessoas para realizar tarefas repetitivas, inovação e automação mudam os métodos e processos para sempre e a vida dos humanos para melhor. Em programação, não vai ser diferente. E a mudança já começou, e há algum tempo. E não há porque temer desemprego em massa, como sempre é o caso quando nos damos conta de que os parâmetros de desenvolvimento tecnológico estão para mudar. Uma nova onda de tecnologia cria necessidades de trabalho maiores do que a anterior. Mais elaborado, mais educado, mais sofisticado, mais bem remunerado.

Danado é que as “aristocracias da hora” continuam se agarrando, quase sempre, às migalhas derradeiras de poder, mesmo quando as mudanças estão destruindo seus tronos. Aos programadores, a todos técnicos e engenheiros da rede e da informática, aristocratas de Veríssimo, talvez valha a pena lembrar que a verdadeira aristocracia é a dos mais capazes e competentes. Para ser parte dela, é preciso desaprender passados e aprender futuros, enquanto se executa, e muito bem, o presente.

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